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sábado, 27 de maio de 2017

[Orações A Saturno] Meu Nome Vilma - Edhson J. Brandão


Meu Nome Vilma

Edhson J. Brandão

eu lhe faria um doce agrado se aqui me estivesse mas de poeira que hoje sou e de lembrança que em você, estou, restam-se então as delícias do meu tempo que já foi. carregue então as flores em aventais para que eu me sinta próxima a você e depois deposite-as no mais calmo abraço e veja que as mãos, hoje suas, estão quentes como outrora. eu me tinha, perdão, não sabia. mas deixo, precioso o meu colo entre os meios de cada dia.

 *

Quem sabe dos mundos, reza. Pedaço de vela afoita acendida próxima aos pés de santa. Aparecida. De fé é feita a fuga para um sofrimento que não se nega. Tênue. Ele se dissipa entre as veias e cada músculo grita um murmúrio apagado porque corpo é denúncia. Vê então que mesmo a procissão postergada até os pés de Maria foi remédio pouco para o ataque que lhe depreciara.
É mulher na cama. Quarenta e dois. Cabelos crespos no corte curto da moda em fim de anos noventa. Vida muita, vida pouca. Logo mais se acaba aquilo que tanto se deseja. Ninguém deseja morrer para ver o que se têm. Como se sofre? Tosses, dores, café e manjericão. Os santos não fogem porque estão presos nas armaduras de gesso. Rezam as crianças noutro quarto, ajoelhadas e crentes, com o terço na mão. O livrinho verde conduz o culto. Eles querem, precisam, clamam. Não sabem se pedem o que pedem. Cura e libertação custam caro e muitas das vezes não surgem como desejamos. Então venha. Clamam às rainhas. Nossa Senhora das Dores. Rogam. Um benzimento infante. Qual poder tem as crianças diante dos espíritos santos? Passam boleta por boleta. Santíssimo rosário em contas de plástico. Lembrança de Aparecida. Elas rezam.
Os adultos na cozinha enquanto a enferma dorme ensaiam o luto adiado, logo mais terão compromisso. Olheiras, pires, bijuterias, moletom e meia-calça. Não há roupa certa para a ocasião. Uma delas chora escondida. Chora internamente. As lágrimas surgem por detrás do globo ocular e queimam os vasos sanguíneos até as narinas, passando pelas papilas para soar o salgado gosto da derrota e tomam as tranqueias para expelirem-se em gás pelos pulmões.
Então a gente se reveza, amanhã venho depois das três porque termino as coisas até meio-dia, deixo o almoço pra janta pronta, passo no banco e venho. Você precisa descansar, Gordo.
Tudo bem. Eu não vou negar, Mima. Eu realmente preciso descansar mas aguento o tranco até amanhã. Uma tarde de sono em casa, lugar que não volto há quinze dias, e depois pego umas roupas limpas e volto aqui. Então fico pronto pra mais uns dias. Muito obrigado, vocês tem ajudado muito.
Que isso, a gente é família. Estamos pra se ajudar. Deixa eu lavar essa louça.
Cadê os meninos?
No quarto, rezando.

Que bonitinhos, Gordo pensou. As crianças possuem a capacidade única de se envolver nas situações mais difíceis e não se deixarem derrubar pelas fomes dessa vida. Ele, a Mima, Clóvis e Marta mal conseguem o tempo para a igreja. A reza é na cabeça o tempo todo, mas praticar o que precisa... nada disso vem.[...]

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo apenas quando há - nada. 

sábado, 20 de maio de 2017

[Orações A Saturno] Dar - Edhson J. Brandão


Dar

Edhson J. Brandão


tudo vai ficar uns quatrocentos reais. TUDO ISSO? NÃO TEM COMO FAZER MAIS BARATO? não tem não, minha filha. o que te fizeram foi muito forte. cê acha que vai ser barato pra mim desfazer esse enredo? MAS ESSE DINHEIRO EU NÃO TENHO AGORA. COMO VOU FAZER? se tiver uns duzentos eu consigo dar uma aliviada. TUDO BEM, DO QUE PRECISA? dois frangos machos, um litro de dendê, farinha de mandioca grossa...

MAS O SANTO COME TUDO ISSO? POR QUE TENHO QUE DAR TANTA COMIDA? você quer se livrar do cara ou não quer? EU QUERO. MAS TO ACHANDO QUE É MUITA COISA PARA DAR AGORA.
minha filha,
quem deu primeiro

foi você.

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo apenas quando há - nada. 

sábado, 18 de março de 2017

[Orações A Saturno] Post Scriptum - Edhson J. Brandão


Post Scriptum

[edhson j. brandão]

Sentado no quarto, entre o livro e os cadernos, as palavras são inerentes. O lápis, a ponta redonda, evita a escrita que deve tomar forma redonda e contínua. Há muito o que dizer, mas falta a escrever. Não sabe, não vê, em dúvida: a forma que as palavras lhe toma. Esquece os discursos diretos e indiretos e não importam os prejudicados dos sujeitos tendo ou não objetos. O empecílio, eu creio, é a forma da letra.
Os cadernos, vejo, são os registros interinos de toda uma vida de escolas, cadeiras, tédios e atenções. O mais velho de todos que é pego, difícil ver daqui, mas parece ser de quando tinha oito anos e nessa idade a palavra copiada tem suntuosas formas. As, os, pês e quês como pãezinhos redondos de cascas inteiriças. Enquanto relê a margarina que os vocábulos pedem seu olho toma o retrato da mãe, na estante à sua direita, que olha atenta sua grafia porque nada pode atravessar os limites da linha. Embora os pingos dos is brinquem de pular entre os jotas e escorregam nas elipses do v, a brincadeira tem hora para acabar porque as oito da noite as crianças jantam e as nove dormem.
Deixa-o para verificar aquele de molas, folhas baleadas. As escritas adolescentes parecem não conformadas com os perímetros das pautas e margens. A rebeldia na mistura entre caracteres cursivos e de imprensa sugerem um rebu que franze sua testa, vejo. No entanto, os vocábulos assimétricos parecem fazer surgir murmúrios que muito se aproximam do que se tem agora. Mas também deixa este caderno para tomar as folhas grampeadas mais acima.
Toma as folhas soltas, são todas independentes e os garranchos tem pressa. As palavras correm enquanto discursam teorias da aprendizagem, o processo cognitivo da linguagem e o que paulos, marias, alemães e pernambucanos tem a dizer sobre o que se ensina nos prédios de grades pelo seu país. Corre os olhos pelas frases e a agilidade como a leitura dispara tende a deixa-lo sem fôlego. Abandona. Parece que não está ali também a forma que deseja.
Então toma os cadernos mais recentes de aparências mais joviais. Os retângulos são identificados por etiquetas planas que indicam em quais anos pertencem aqueles sólidos. Abre cada um deles e nota como os vocábulos vão se organizando retamente e buscam, em toda a geometria, ser claros para alguém. Quem? Um dos cadernos é todo em letra bastão. Alfabetização! O outro se inicia também em bastão, depois passa pela letra de imprensa e finaliza convicto nas curvas decididas de um escrito dedicado. Quem leu isso?
Fecha todos os cadernos. Mãe, apartamento, lotação, leve-leite, Brasil vice-campeão de 98, bola de leite, Magda, quadrinhos, pornô, desenhos japoneses, Playstation, Tanabi, teia de aranha, salgados fritos, malhação, allstar, By The Way, Frank Wedekind, beijo em Aderízio, sexo escondido, blog, MSN, trampo na Folha, Piaget, Vygostski, condução, trânsito, Rodovia Washington Luís, concurso público, alisante capilar, multas, hipóteses de escrita, círculos, espelho, barba, Martini, Rafael, linha verde, balsa, livros, Palácio de la Moneda, Casa das Rosas, iphone, curvas de Santos, livros de cadernos. Palavra. Lexico semiótico poli diametral.
Parece não saber qual forma tomam suas palavras a partir de agora. Esboça uma dúvida, vejo, de qual corpo o léxico deve formar.  E enquanto não há forma, não há corpo, não há vida e não me parece que respira. Está morto, suponho. Mas a fagulha de letra que acredito desapontar no seu peito leva sua mão a tomar o lápis. Ponta redonda. Vá, escreva, torço. Obedece.
E a forma que se toma é esta que chega. Ele escreveu e não sabe que letra usou.
Mas escreveu e esta é a vitória destas linhas.    

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 


sábado, 4 de março de 2017

[Orações A Saturno] delírio - Edhson J. Brandão


delírio

[edhson j. brandão]


hoje pequena. uma finura doentia e a cor de quem já cansa.
estava na sua pele a marca de quem já vivera outrora. muitos.
acontecimentos mal desabrocharam nesta fração de vida, mas restou a imagem seca e crua que é
o passado.
a pequena roseira de Rute morreu ainda ontem.
sentida do que,
ninguém sabe.

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 


sábado, 25 de fevereiro de 2017

[Orações A Saturno] 3 meta-poemas - Edhson J. Brandão


3 meta-poemas

[edhson j. brandão]



I

Neguei
meu
discurso
como
versos
negam
meu
espírito.

(Sei
do
poema;
não
sei 
é
de
ti).

II

iluminei                                           caminhos
                                                com
tinta                                          
                          nanquim.


não          sei de
                                poeta,
sou fraco                                
profeta
mas                                               
                                      tu
lê-me
mesmo
assim.


III

explora
o
verso

desdobra
a
métrica

− Não quero.


poesia: momento.

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

[Orações A Saturno] Coito - Edhson J. Brandão


coito

[edhson j. brandão]

você, meu ledor,
abra suas
pernas
e eu penetro
meu verso
rígido

ereto

concreto

e metrado


abra-me
novamente
e minhas rimas
surtirão

quentes
eloquentes
e dementes
porque minha poesia
não mente

meu verso
pleonasmo
entre seu
rasgo
promete
espasmos
dísticos
orgasmos


gozo minha
palavra
para você, ledor
que só gemia


ah!

isso quisera ser poesia


*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

[Orações A Saturno] Porque mais não veio - Edhson J. Brandão


porque mais não veio

[edhson j. brandão]

− Não, Italo. Não é assim que se resolve os problemas. Eu já te falei antes. Por que você não me chama quando acontece uma coisa dessas? Você acha que pode resolver sozinho. Por que não me chamou, hem?
− Porque você não estava aqui.
..

Dormiu mal mas acordou como em qualquer dia. A espuma amarela do colchonete ainda fedia a mijo mas tudo fica muito natural depois do costume. De pés sujos, acordou assim. Despertado pelos cutucos dos dedos do pé da mãe que fervia uma meia caneca de leite no fogãozinho industrial. Bora, moleque, cê tem aula. Vamo, levanta! Eu não to pedindo, to mandando, caralho! Puxado pelo ombro da camiseta esgarçada ficou de pé forçosamente. Uma bosta de vida, deveria pensar, mas com a idade que tinha só podia discorrer que tudo era chato. O leite fervido com pequenas natas numa caneca de plástico era desjejum. O prato principal ele teria na escola. Bora, cata suas coisa e some. Eu só volto a noite então é pra ficar por perto, tendeu? Tchau. Só lavou o rosto e nem teve tempo pra odiar e tomou a rua. Na escola alguém sentiria sua falta.
...

Você não tá bem. Não to. Que foi? To preocupada. Com o que? Um aluno meu. Aquele lá? É. O que aconteceu? Está faltando. Não apareceu ainda essa semana. Mas não é bom? Você sempre disse que ele dava trabalho, bagunça muito. Não é melhor sem ele? Não.
....

Um filho da puta aquele lazarento. O garoto teve o maior trabalho de fazer quinhentos paus em duas semanas e o viado do Marleyson não lhe vendeu a porra do 38. Correu gira com duas dúzia de sacos de pó entre a Vila Curumim e a Varginha, dormiu na belina velha perto do beco da onça e despistou três viaturas com o cu na mão. Falou com o Dundi que iriam a mão livre mesmo. O Dundi levaria uma faca e já era.
Pegariam o velho tiozinho da ecosport no primeiro farol depois da saída do shopping. Dez e pouco, a saída que dava para a alameda vitória era escura e o mais trouxa se fodia. Valeu, falou.
......

Não tá indo pra escola de novo. A mãe já foi solta, falta mais o que? Ela já passa no CREAS. Eu liguei pro Valdir, ele tá com a perua pra dar uma olhada no barraco dela. A gente não tem sossego mesmo. Olha! É um bandidinho já, meu. Cê acha o que? Dá uma ligada na 74. Se bobear ele tá lá. É, só dez anos mas fazer o que.
.......

Percebeu que ele estava na fila e ficou mais aliviada. Correu antes do sinal até seus alunos para olhá-lo. Estava um pouco mais limpo graças a Deus. A pasta dele estava cheia de atividades em branco mas o dia correu limpo e o menino estava num desempenho tão bom que dava pra desconfiar. Brigou pouco. Escreveu listas, fez continhas com reserva, treinou letra de mão e até a sondagem adaptada de história. Sua alegria tinha um fundo de tristeza. Foi tentado a conversar, ela queria muito ouvir. Nada. Passando a mão sobre os cabelos lisos, pretos e secos ela disse que queria ele sempre ali, que era tão bom quando ele aproveitava a aula. Que ela gostava da presença dele e que era importante para seu futuro mas não soube lidar com a pergunta dele:
− Que futuro, professora?
........

Isso é hora, moleque do caralho? Vagabundo, viado arrombado! (tapa) To que nem uma loca fazeno meus corre e você por aí! (tapa) Onde ce tava, hem? Porra, seu otário! Fala comigo, seu merda (tapa)! Eu sou sua mãe e não uma chocadeira. Eu to correndo pra nós dois, tendeu? (começo de choro). Cê já tem seu pai e eu de bandida e vai pra jaula também? (chora) Para de ser retardado. (acende o cachimbo e fuma enquanto ele chora sem ruído e vê ela se drogar como alívio. Foi a última vez que a viu).
..........

Teve um raio de uma denúncia de que dois menores estavam assaltando o Condomínio Intense na Vila Pedreira. O Prestes foi no volante dando o grau de cento e vinte por hora na Kubitschek e avançamos oito quadras em uns dois minutos. Chegamos lá e os menores estavam dentro do Sentra. O depois você já sabe, viu no jornal. Eu não falo mais depois daqui, sinto muito.

...........

Bolsa no sofá, corrida pro banheiro. Joga uma água no rosto. O estomago embrulhado pode ser resolvido com o omeoprazol. Angústia: ele não apareceu de novo. Na semana passada Italo tinha dito que não voltaria mais, ela achou que era mentira. Não quis ligar a TV, não quis olhar a internet. Fechou as cortinas e dormiu.
...........

Riu como medo e incerteza dos instantes
Quem viu, viu
Quem não foi só deve sentir muito
Estrela de mil pontas
No alto do crime
Criança não tem idade
Despediu-se sem o tempo do tchau
Um amém sem glória, sem benção
#partiu malandragem
Pro mundo das infâncias
onde quem tem ódio
Não entra

.
Derrotada ao saber, deu sua aula de gramática em luto. O pesar das outras crianças e a culpa indevida deixou o ambiente nefasto. Como tantos e poucos ele deveria estar ali sentado entre as demais brigando ou xingando, nos seus palavrões, gírias e ameaças e mesmo em ataques de raiva. Deveria estar ali mesmo com broncas, stresses, ritalinas ou síndromes de Bournot. Que risca o giz faz, que página o livro abre? Sem sentido, cumpriu o horário naquele dia sem ver por que nem pra quê. Ninguém comentou na aula. Mas nos entornos da escola os alaridos tinham só um assunto. O primo dele faltou, o que poderia dizer. Entre os colegas de trabalho: ruptura. Muitos acharam que aquele era mesmo seu destino, outros enxergavam injustiça. Só o caderno de Ítalo sobrou sobre a estante ao fundo da sala. Só suas letras disgráficas restaram em uma história de derrotas. Apenas as tentativas de letramento de uma docente sobraram em um compêndio de frustração. Tudo por quê, ela queria saber ao fim do dia. Tudo por quê?
Tudo porque ele não estava ali? Não. É crueldade e eufemismo atribuir responsabilidades a apenas um aldeão. Uma escada de erros e perdemos crianças, meninos, em desgraças habituadas a adultos. Ele estaria ali se lhe houvesse outra opção. Mas não estava pois não houve. Uma linha vermelha no diário de chamada. Uma reta sem fim nos dias do tempo porque mais não veio.

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 

sábado, 4 de fevereiro de 2017

[Orações A Saturno] Entra - Edhson J. Brandão


entra

tomou a mim como se eu outrora eu já me fizera seu
agora, não há o que lamentar.

a sua presença era para os vizinhos de vida, aqueles que moram nas matérias próximas à gente. sendo por décadas e anos, ou dias e minutos. porém, de alguma maneira encontrava suas formas e meios para atingir a mim. quando vinha, vinha pesado e sufocante. eu apenas bloqueava minhas narinas e bocas e tentava deixar limpa minha respiração carbônica.

levou vários, tirou muito
agora, busca que eu me tire também

embora abominável em dados momentos, sedutor em outro. é bonito vê-lo nas elegâncias das noites e incrementando inteligências pelo mundo afora. esse seu poder de manipular a imagem dos que o têm sempre me despontou. eu queria aquilo também. entre unhas, entre batons, nos becos e nos bares, nos filmes e nas calçadas. um prazer fálico e oral. se introduz e se escapa e nós carregamos suas manchas.
entra

me eleva, me danifica
agora, me empedra mas não solidifica

até que chegou a mim nas brincadeiras das sextas e sábados de madrugada. tinha-me nos esconderijos onde a culpa e a vergonha não chegam. causava-me calma esta poluição invasiva. sua ponta brasil dizia em minutos que sua companhia é efêmera e se parece distante, mas a medida que o consumo, vem a mim. no entanto, vem a mim em matéria gasosa. em sopros pintados em elipses cinzas – fácil confundir com ilusão. e se some com o sugar de minha boca que se amarga, se rejeita, mas quer tanto seu pousar sobre meus lábios. então em ar toma a mim inteiro deixando no meu corpo os traços de uma sinestesia que custa minha saúde. quando me sufoca, eu lhe solto e tomamos o ar dançantes afirmando que a atmosfera é o que eu sopro. por muito entra em mim de hora a hora. me reativa, me empalidece. me aviva e me mata. procurar a sua perda é um desespero que o corpo evidencia em agonia e frenetismo. não é de mim mas preciso tê-lo.  rouba meus segundos fingindo dissipar os cortes do espírito. mas a alma nunca cicatriza. mas é companhia. boa parceria para as palavras que não sabem ser faladas.

é um trago, um enfado
um poemaço corrosivo
mas sutil
leva-me em tudo quando sou fumaça
só não leva meu peito
pelo verso
que ele abraça

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 

sábado, 10 de dezembro de 2016

[Orações A Saturno] - Conto de Vontade - Edhson Brandão



Morreu foi tarde aquela velha maldita do quarto andar. Víbora. Cobra de uma figa. Achei foi pouco o câncer que comeu todas as suas tripas. Pagou seus pecados em vida e eu comemoro porque acho justo.
Quem deste condomínio nunca foi vítima das perversidades delicadas dela que não pague mais as taxas de água e serviço. Somos poucos. Quantos mal agouros, quebrantos e olhos gordos não quebrei em reza vindos daquela mandingueira? Velha feiticeira molestava a cabeça das crianças criando lombrigas e bichas por pura crueldade. Seu cabelos ao ralo, fio a fio, foram tomados pela justiça do mundo porque aqui se faz e aqui se paga.
Não vou me esquecer tão fácil das vontades que passei provocadas por aquela indecente. Imagine só se isso é coisa que se faça. A sua janela ficava quase em frente a minha, mesmo eu morando no terceiro andar porque o solo daqueles prédios era desnivelado. O edifício do apartamento dela era sob um pequeno morro o que deixava seu primeiro andar nas metades do segundo andar do prédio paralelo, o que moro. Estou aqui há vinte e sete anos, olhei pra essa cara rabugenta e mal-lavada desde os três. Ainda pequena, me espreitava na janela da sala para observar o movimento dos condôminos e das fofocas da manhã enquanto as donas de casa paravam, próximas à escada, suspendendo suas bacias vazias entre as ancas e punhos. E era só me ver na espreita que a maldita começava. Em uma simpatia ardil chamava a minha atenção com bom-dia-menininha-linda. Em suas mãos sempre um doce, um pote de sorvete, um pedaço de bolo confeitado ou iogurte rosa. Perguntava da minha vida e da minha família enquanto se deleitava nos quitutes industrializados que vendia no Nagumo. Lambuzava seus dedos propositalmente e os lambia olhando para mim, quase que sexualmente, e soltava elogios à comilança enquanto me ouvia ou dizia suas bobagens domésticas.
Tinha um filho quase da minha idade com quem eu quase não brincava. Moleque chato, metido a rico. Só apanhava dos meninos do bloco bê e cê. Insuportável. Mas a merda se dava quando chegava agosto e lá pelos treze, catorze dias do mês os convitinhos de festa do Corinthians começavam a chegar por baixo das portas das famílias que tinham crianças no condomínio. Todas menos a minha. Aliás, menos a minha família e a do Jorge. Eu sabia porque, do Jorge já não sei.
Era o cúmulo: dias antes já se viam os meninos maiores e os moços rapazes bonitos descendo com os sofás dela para sua garagem. Logo depois, enquanto as demais crianças e eu brincávamos nas quadras e corredores, passavam a jararaca com o filho e mais gente de fora carregando sacolas, imagens em isopor, sacolas de bexiga e fardos de refrigerante. Tudo Convenção. Nisto não me queixo por nunca ter sido convidada. Odeio refrigerante barato. Os comentários começavam, os colegas contavam os presentes que compravam porque quando se recebia convite de papel para uma festa o presente era obrigatório. Aprendi assim. E eu lá, sobrava, quando sentada balançando minhas pernas equilibrando os chinelos numa brincadeira solitária. Então, depois de muitos preparativos e angústias, nas tardes destes sábado, das quatro a seis todas as crianças sumiam. Quando chamadas, sempre era recebida por adulto que dizia que Isadora tá no banho, Juninho se trocando e a Rafa já saiu. Restava eu chutando bolas esquecidas, sozinha, tentando algo no trepa-trepa ou jogando pedras em cima dos telhados de eternit das garagens. Eu me era tão órfão mesmo com meus pais vivos e queridos na minha casa. A canseira chegava e eu então subia pra casa. E quando dava sete horas é que o inferno começava. O som era ligado. Tocava Sandy e Junior, Xuxa, Eliana e os sucessos daquela época. As escadas que davam acesso ao apartamento da mocréia se enchiam. Todo mundo comendo e bebendo. As crianças, do prédio, da rua, da escola e parentes dela ficavam pra cima e pra baixo com coxinhas, pãezinhos de carne louca e copos de refrigerante. Eu sabia disso tudo porque espiava da janela. Mas nestas vezes pela da cozinha que era mais discreta. Um dia desses, deveriam ser nos nove anos do menino, eu espiei pela sala. Olhei tudo aquilo com a inveja que toda criança tem quando vê os outros sorrindo e ela não. Pois foi quando a velha me viu, naquela época nem tão velha assim, concordo. Então a velha me viu, sorriu cinicamente. Ela segurava uma bandeija de comes que devia estar servindo. Então, ela toma algo da bandeija – brigadeiros, beijinhos ou cajuzinhos, não lembro – e come olhando pra mim. Come e me olha. Mastiga deliciosamente e degusta com louvor cada sabor diluído em suas papilas funestas. Vagabunda. Após consumir o ato, com o mínimo de dignidade, fecha a janela interrompendo minha assistência.
Eu não lembro de muito depois, mas lembro do mal-estar e dos enjôos que eu sentia. Lembro da vontade de nada que me dava depois daquelas cenas. Lembro de pedir bolo e brigadeiro pra minha mãe e ela dizer depois. Lembro de pedir que meu pai me levasse a uma festa e ele respondendo que o aniversário do Carlinhos estava perto. Lembro do terror que tinha ao passar por aquela porta quando tinha que dar um recado à Marta do quinto andar. Lembro-me do medo que tinha de passar vontade. Vontade.
Que o fresco da terra tomem seu corpo como minhas fomes e desejos tomaram meu ventre. Descanse, velha, enquanto eu deleito o vazio que você faz. 


*

sábado, 3 de dezembro de 2016

[Orações a Saturno] Conto: Caso de Dolores Campana - Edhson Brandão





Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.
Adélia Prado

A mulher que estava ao lado do rapaz de boné e moletom cinza e desceu na cidade dos meninos enquanto se estava no troleibus é Dolores Campana. Coque baixo, batom púrpura e colar em pingentes de três meninas não deixa enganar.  Nota-se pelas botas gastas também – que aquele calçado é daquele tempo.
Pois bem. Houve caso com ela, deve pensar. Caso no mínimo singular daqueles bem interessantes para rodas de conversa e grupos de mexerico em bazar. Relacionamento extraconjugal cujo grande cume da relação não era coito. Veja só como histórias podem ser interessantes.  O elo que sustentava o caso de Dolores Campana era uma afinidade em comum e que se fazia raro encontrar demais companheiros para a prática dos feitos naquela região da cidade. Dizemos no teotônio vilela, zona leste de são paulo, periferia, pertinho de são mateus. Ali prazeres demoram a se conhecer. Mas a sorte de Dolores Campana é no mínimo digna de registro a tomar páginas de prodigiosa literatura.
A história não se lembra em que pé começa mas se consegue dizer que se deu entre o itinerário do dois-oito-cinco, ferrazópolis-são mateus, onde a vida ganha graça com operários e secretárias buscando glórias do salário.  Sobre a história também se consegue dizer que se deu início entre as quatro e seis da tarde, para ser preciso, no sentido da capital. Sabe-se disso porque não haveria outra possibilidade de encontro entre partes porque um usa coletivo para  trabalho e outro, visitas esporádicas em boa amizade.  Então em dia desses, Dolores Campana é abordada logo após fechar um Adélia Prado na página trinta e oito. Bagagem, ela responde com ar surpreso. Os acontecimentos e os dizeres, lembrou. Como em ousadia, o assunto é insistentemente continuado naquela tarde de maneira que o assunto se interrompe apenas pela chegada do ônibus em seu itinerário final. Esta cena se repetiu por dias, convém dizer até que o caso realmente se torna digno de prosa. De romances em romances a relação se estreita de um modo que os meros encontros no corredor metropolitano não são mais sustentáveis e a troca de telefones é inevitável.
A partir de então, visitas às amizades são constantes e ligar para Dolores Campana pela noite era inútil pois sua linha permanecia ocupada durante todo horário nobre. A companhia conjugal de Dolores Campana não percebia qualquer índice ou suspeita de adultério – ainda que virtual – nestes hábitos que estava adotando. A intervenção da parte traída se dá mais linhas a frente – deve-se adiantar antes que dúvidas surtam em qualquer consciente aqui presente. Quando telefonemas se cansam dos poemas foi preciso algo mais proximal, os campos de força de ambos e a necessidade espiritual do acalento mais íntimo se era inevitável. 
As terças e quintas, sempre tarde para a noite, passaram a ser consumidas a dois e em ambientes discretos, mas isso nem sempre. Os atos podiam ser consumados em qualquer ambiente e foram vistos em público algumas vezes, pode-se garantir. Encontros cheirados a sândalo e vertigens que se obtinham eram viciosas. A coisa chegou a seu ápice quando as tardes viraram alvoradas e finais de semanas possuídos pelas taras e prazeres de um orgasmo incomum. Lírico.  A companhia singular de Dolores Campana chegou a mudar seu endereço para que a proximidade permitisse ainda mais momentos nesta gangbang das linguagens. E quando o  ponto é máximo e todos estão contentes, de súbito Dolores Campana é descoberta por conta de desculpa mal dada e plano falho. Não se sabe o que ocorreu dentro de sua casa, em seu leito e banheiro.
Sabe-se que após tantos desvarios e espasmos cada qual toma sua rotina antiga sem os prazeres poéticos de um caso pouco sabido.

Cruzamos frequentemente com Dolores Campana que continua a mesma mas agora não permite que mais ninguém flerte com sua intimidade literária. 
Ela ainda usa as mesmas botas. As gastas. Daquele tempo.


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Orações A Saturno é a nova coluna de sábado do Faroeste. Doses de prosa e poesia contemporâneas para sábado, domingo e a semana toda. 
Eu sou Edhson Brandão, 27, paulistano e um gateiro de primeira. Sou autor de "Letra de mão e mais algumas historietas escolares" (Giostri, 2016), colaboro com algumas revistas virtuais, toco a Revista Semeadura e agora estou aqui no Faroeste!

Saudações saturninas e vamo-que-vamo!
Até sábado que vem.