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domingo, 28 de janeiro de 2018

[2ª Estante] (Orações A Saturno - 25/03/17) 2/5 de coragem que me levam até onde posso - Edhson J. Brandão


2/5 de coragem que me levam até onde posso
José Ausente

ele é de libra com ascendente em leão, lua em virgem e eu não sei porra nenhuma do que isso significa mas o importante de tudo fica seguro no brilho de vela que o olhar dele se ascende quando o vejo.
é meio confuso, pra não dizer desnecessário, essa minha atração pelo cara mas a possibilidade de contar com o impossível e a certeza da ausência de horas entre a minha pele a dele excitam meu pau rubro que se estala em veias.
a gente se conhece de ônibus.
eu o conheço de ônibus; ele tira de mim um pouco do trajeto que compartilhamos – meu e de mais um milhão de batateiros e nordestinos do brasil todo – nesta lataria que sacode a rua da vida. ele é cafuçu: termo pejorativo que rola na rede social para caracterizar esses meninos héteros, fortinhos e com estilo bem periférico.
mas sabe,
percebo nele um quê de sensível porque já o vi pedir pra carregar a bolsa de uma loira de meia-idade e a voz dele soou tão, tão limpa.
eu sei onde mora e até quem namora.
vez e outra, quando nos cruzamos na linha durante o fim de semana, ele aparece abraçado a ela e eu fico enrijecido invejando o braço dele sobre aquele ombro vermelho dela. há uns tribais em seu braço, pega até o ombro e eu já medi aquela tattoo em mim, pelado, depois do banho. aquele desenho eu percorreria na língua. será que ela faz isso?
bonita também são suas axilas. ele apara os pelos então são pequenas penugens delicadas que despertam uma atração juvenil. tem também o caminho da felicidade, porquê não falar disto a esta altura já que estou me abrindo tanto; pelinhos finos e alinhados do umbigo e que penetram convidativamente pela cintura da calça que eu vejo quando segura nas barras do ônibus. segunda de manhã.
quando faz calor, vou dizer, é deleite para minhas mãos horas depois. ele desce, tira a camiseta e seu caminhar é felino; um molejo realçado pelas cochas grossas e aquele corpo parrudo de quem malha na vida.
não faço ideia do que sou pra ele, mas veja, ele está escrito e nem sabe.
eu não nasci ousado e isso deve ser por causa do meu signo ou da posição da minha vênus e me falta muito a coragem que outros tem para arriscar qualquer flerte. não arrisco, me fecho. sou pouco ou vazio para aqueles ombros.
não há dois quintos de coragem que me levam até onde posso.
vou vivendo.

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

[2ª Estante] (Orações A Saturno - 18/03/17) Post Scriptum - Edhson J. Brandão


Post Scriptum

[edhson j. brandão]

Sentado no quarto, entre o livro e os cadernos, as palavras são inerentes. O lápis, a ponta redonda, evita a escrita que deve tomar forma redonda e contínua. Há muito o que dizer, mas falta a escrever. Não sabe, não vê, em dúvida: a forma que as palavras lhe toma. Esquece os discursos diretos e indiretos e não importam os prejudicados dos sujeitos tendo ou não objetos. O empecílio, eu creio, é a forma da letra.
Os cadernos, vejo, são os registros interinos de toda uma vida de escolas, cadeiras, tédios e atenções. O mais velho de todos que é pego, difícil ver daqui, mas parece ser de quando tinha oito anos e nessa idade a palavra copiada tem suntuosas formas. As, os, pês e quês como pãezinhos redondos de cascas inteiriças. Enquanto relê a margarina que os vocábulos pedem seu olho toma o retrato da mãe, na estante à sua direita, que olha atenta sua grafia porque nada pode atravessar os limites da linha. Embora os pingos dos is brinquem de pular entre os jotas e escorregam nas elipses do v, a brincadeira tem hora para acabar porque as oito da noite as crianças jantam e as nove dormem.
Deixa-o para verificar aquele de molas, folhas baleadas. As escritas adolescentes parecem não conformadas com os perímetros das pautas e margens. A rebeldia na mistura entre caracteres cursivos e de imprensa sugerem um rebu que franze sua testa, vejo. No entanto, os vocábulos assimétricos parecem fazer surgir murmúrios que muito se aproximam do que se tem agora. Mas também deixa este caderno para tomar as folhas grampeadas mais acima.
Toma as folhas soltas, são todas independentes e os garranchos tem pressa. As palavras correm enquanto discursam teorias da aprendizagem, o processo cognitivo da linguagem e o que paulos, marias, alemães e pernambucanos tem a dizer sobre o que se ensina nos prédios de grades pelo seu país. Corre os olhos pelas frases e a agilidade como a leitura dispara tende a deixa-lo sem fôlego. Abandona. Parece que não está ali também a forma que deseja.
Então toma os cadernos mais recentes de aparências mais joviais. Os retângulos são identificados por etiquetas planas que indicam em quais anos pertencem aqueles sólidos. Abre cada um deles e nota como os vocábulos vão se organizando retamente e buscam, em toda a geometria, ser claros para alguém. Quem? Um dos cadernos é todo em letra bastão. Alfabetização! O outro se inicia também em bastão, depois passa pela letra de imprensa e finaliza convicto nas curvas decididas de um escrito dedicado. Quem leu isso?
Fecha todos os cadernos. Mãe, apartamento, lotação, leve-leite, Brasil vice-campeão de 98, bola de leite, Magda, quadrinhos, pornô, desenhos japoneses, Playstation, Tanabi, teia de aranha, salgados fritos, malhação, allstar, By The Way, Frank Wedekind, beijo em Aderízio, sexo escondido, blog, MSN, trampo na Folha, Piaget, Vygostski, condução, trânsito, Rodovia Washington Luís, concurso público, alisante capilar, multas, hipóteses de escrita, círculos, espelho, barba, Martini, Rafael, linha verde, balsa, livros, Palácio de la Moneda, Casa das Rosas, iphone, curvas de Santos, livros de cadernos. Palavra. Lexico semiótico poli diametral.
Parece não saber qual forma tomam suas palavras a partir de agora. Esboça uma dúvida, vejo, de qual corpo o léxico deve formar.  E enquanto não há forma, não há corpo, não há vida e não me parece que respira. Está morto, suponho. Mas a fagulha de letra que acredito desapontar no seu peito leva sua mão a tomar o lápis. Ponta redonda. Vá, escreva, torço. Obedece.
E a forma que se toma é esta que chega. Ele escreveu e não sabe que letra usou.
Mas escreveu e esta é a vitória destas linhas.    

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 

sábado, 20 de janeiro de 2018

[2ª Estante] (Orações A Saturno - 11/03/17) esú III - Edhson J. Brandão


esú III

[edhson j. brandão]

querias
a mim
‘que sou ligeiro

querias
a mim
e o que lhes trago

não há
ganho
sem trago.

célere
que sou

ao que lhe venho
já me vou

*  *

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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

[2ª Estante] (Orações A Saturno - 04/03/17) delírio - Edhson J. Brandão


delírio

[edhson j. brandão]


hoje pequena. uma finura doentia e a cor de quem já cansa.
estava na sua pele a marca de quem já vivera outrora. muitos.
acontecimentos mal desabrocharam nesta fração de vida, mas restou a imagem seca e crua que é
o passado.
a pequena roseira de Rute morreu ainda ontem.
sentida do que,
ninguém sabe.

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

[2ª Estante] (Orações A Saturno - 25/02/17) 3 meta-poemas - Edhson J. Brandão


3 meta-poemas

[edhson j. brandão]



I

Neguei
meu
discurso
como
versos
negam
meu
espírito.

(Sei
do
poema;
não
sei 
é
de
ti).

II

iluminei                                           caminhos
                                                com
tinta                                          
                          nanquim.


não          sei de
                                poeta,
sou fraco                                
profeta
mas                                               
                                      tu
lê-me
mesmo
assim.


III

explora
o
verso

desdobra
a
métrica

− Não quero.


poesia: momento.

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

[2ª Estante] (Orações A Saturno - 18/02/17) Coito - Edhson J. Brandão


coito

[edhson j. brandão]

você, meu ledor,
abra suas
pernas
e eu penetro
meu verso
rígido

ereto

concreto

e metrado


abra-me
novamente
e minhas rimas
surtirão

quentes
eloquentes
e dementes
porque minha poesia
não mente

meu verso
pleonasmo
entre seu
rasgo
promete
espasmos
dísticos
orgasmos


gozo minha
palavra
para você, ledor
que só gemia


ah!

isso quisera ser poesia


*  *



Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

[2ª Estante] (Orações A Saturno - 11/02/17) Porque mais não veio - Edhson J. Brandão


porque mais não veio

[edhson j. brandão]

− Não, Italo. Não é assim que se resolve os problemas. Eu já te falei antes. Por que você não me chama quando acontece uma coisa dessas? Você acha que pode resolver sozinho. Por que não me chamou, hem?
− Porque você não estava aqui.
..

Dormiu mal mas acordou como em qualquer dia. A espuma amarela do colchonete ainda fedia a mijo mas tudo fica muito natural depois do costume. De pés sujos, acordou assim. Despertado pelos cutucos dos dedos do pé da mãe que fervia uma meia caneca de leite no fogãozinho industrial. Bora, moleque, cê tem aula. Vamo, levanta! Eu não to pedindo, to mandando, caralho! Puxado pelo ombro da camiseta esgarçada ficou de pé forçosamente. Uma bosta de vida, deveria pensar, mas com a idade que tinha só podia discorrer que tudo era chato. O leite fervido com pequenas natas numa caneca de plástico era desjejum. O prato principal ele teria na escola. Bora, cata suas coisa e some. Eu só volto a noite então é pra ficar por perto, tendeu? Tchau. Só lavou o rosto e nem teve tempo pra odiar e tomou a rua. Na escola alguém sentiria sua falta.
...

Você não tá bem. Não to. Que foi? To preocupada. Com o que? Um aluno meu. Aquele lá? É. O que aconteceu? Está faltando. Não apareceu ainda essa semana. Mas não é bom? Você sempre disse que ele dava trabalho, bagunça muito. Não é melhor sem ele? Não.
....

Um filho da puta aquele lazarento. O garoto teve o maior trabalho de fazer quinhentos paus em duas semanas e o viado do Marleyson não lhe vendeu a porra do 38. Correu gira com duas dúzia de sacos de pó entre a Vila Curumim e a Varginha, dormiu na belina velha perto do beco da onça e despistou três viaturas com o cu na mão. Falou com o Dundi que iriam a mão livre mesmo. O Dundi levaria uma faca e já era.
Pegariam o velho tiozinho da ecosport no primeiro farol depois da saída do shopping. Dez e pouco, a saída que dava para a alameda vitória era escura e o mais trouxa se fodia. Valeu, falou.
......

Não tá indo pra escola de novo. A mãe já foi solta, falta mais o que? Ela já passa no CREAS. Eu liguei pro Valdir, ele tá com a perua pra dar uma olhada no barraco dela. A gente não tem sossego mesmo. Olha! É um bandidinho já, meu. Cê acha o que? Dá uma ligada na 74. Se bobear ele tá lá. É, só dez anos mas fazer o que.
.......

Percebeu que ele estava na fila e ficou mais aliviada. Correu antes do sinal até seus alunos para olhá-lo. Estava um pouco mais limpo graças a Deus. A pasta dele estava cheia de atividades em branco mas o dia correu limpo e o menino estava num desempenho tão bom que dava pra desconfiar. Brigou pouco. Escreveu listas, fez continhas com reserva, treinou letra de mão e até a sondagem adaptada de história. Sua alegria tinha um fundo de tristeza. Foi tentado a conversar, ela queria muito ouvir. Nada. Passando a mão sobre os cabelos lisos, pretos e secos ela disse que queria ele sempre ali, que era tão bom quando ele aproveitava a aula. Que ela gostava da presença dele e que era importante para seu futuro mas não soube lidar com a pergunta dele:
− Que futuro, professora?
........

Isso é hora, moleque do caralho? Vagabundo, viado arrombado! (tapa) To que nem uma loca fazeno meus corre e você por aí! (tapa) Onde ce tava, hem? Porra, seu otário! Fala comigo, seu merda (tapa)! Eu sou sua mãe e não uma chocadeira. Eu to correndo pra nós dois, tendeu? (começo de choro). Cê já tem seu pai e eu de bandida e vai pra jaula também? (chora) Para de ser retardado. (acende o cachimbo e fuma enquanto ele chora sem ruído e vê ela se drogar como alívio. Foi a última vez que a viu).
..........

Teve um raio de uma denúncia de que dois menores estavam assaltando o Condomínio Intense na Vila Pedreira. O Prestes foi no volante dando o grau de cento e vinte por hora na Kubitschek e avançamos oito quadras em uns dois minutos. Chegamos lá e os menores estavam dentro do Sentra. O depois você já sabe, viu no jornal. Eu não falo mais depois daqui, sinto muito.

...........

Bolsa no sofá, corrida pro banheiro. Joga uma água no rosto. O estomago embrulhado pode ser resolvido com o omeoprazol. Angústia: ele não apareceu de novo. Na semana passada Italo tinha dito que não voltaria mais, ela achou que era mentira. Não quis ligar a TV, não quis olhar a internet. Fechou as cortinas e dormiu.
...........

Riu como medo e incerteza dos instantes
Quem viu, viu
Quem não foi só deve sentir muito
Estrela de mil pontas
No alto do crime
Criança não tem idade
Despediu-se sem o tempo do tchau
Um amém sem glória, sem benção
#partiu malandragem
Pro mundo das infâncias
onde quem tem ódio
Não entra

.
Derrotada ao saber, deu sua aula de gramática em luto. O pesar das outras crianças e a culpa indevida deixou o ambiente nefasto. Como tantos e poucos ele deveria estar ali sentado entre as demais brigando ou xingando, nos seus palavrões, gírias e ameaças e mesmo em ataques de raiva. Deveria estar ali mesmo com broncas, stresses, ritalinas ou síndromes de Bournot. Que risca o giz faz, que página o livro abre? Sem sentido, cumpriu o horário naquele dia sem ver por que nem pra quê. Ninguém comentou na aula. Mas nos entornos da escola os alaridos tinham só um assunto. O primo dele faltou, o que poderia dizer. Entre os colegas de trabalho: ruptura. Muitos acharam que aquele era mesmo seu destino, outros enxergavam injustiça. Só o caderno de Ítalo sobrou sobre a estante ao fundo da sala. Só suas letras disgráficas restaram em uma história de derrotas. Apenas as tentativas de letramento de uma docente sobraram em um compêndio de frustração. Tudo por quê, ela queria saber ao fim do dia. Tudo por quê?
Tudo porque ele não estava ali? Não. É crueldade e eufemismo atribuir responsabilidades a apenas um aldeão. Uma escada de erros e perdemos crianças, meninos, em desgraças habituadas a adultos. Ele estaria ali se lhe houvesse outra opção. Mas não estava pois não houve. Uma linha vermelha no diário de chamada. Uma reta sem fim nos dias do tempo porque mais não veio.

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

[2ª Estante] (Orações A Saturno - 04/02/17) Entra - Edhson J. Brandão

entra tomou a mim como se eu outrora eu já me fizera seu agora, não há o que lamentar. a sua presença era para os vizinhos de vida, aqueles que moram nas matérias próximas à gente. sendo por décadas e anos, ou dias e minutos. porém, de alguma maneira encontrava suas formas e meios para atingir a mim. quando vinha, vinha pesado e sufocante. eu apenas bloqueava minhas narinas e bocas e tentava deixar limpa minha respiração carbônica. levou vários, tirou muito agora, busca que eu me tire também embora abominável em dados momentos, sedutor em outro. é bonito vê-lo nas elegâncias das noites e incrementando inteligências pelo mundo afora. esse seu poder de manipular a imagem dos que o têm sempre me despontou. eu queria aquilo também. entre unhas, entre batons, nos becos e nos bares, nos filmes e nas calçadas. um prazer fálico e oral. se introduz e se escapa e nós carregamos suas manchas. entra me eleva, me danifica agora, me empedra mas não solidifica até que chegou a mim nas brincadeiras das sextas e sábados de madrugada. tinha-me nos esconderijos onde a culpa e a vergonha não chegam. causava-me calma esta poluição invasiva. sua ponta brasil dizia em minutos que sua companhia é efêmera e se parece distante, mas a medida que o consumo, vem a mim. no entanto, vem a mim em matéria gasosa. em sopros pintados em elipses cinzas – fácil confundir com ilusão. e se some com o sugar de minha boca que se amarga, se rejeita, mas quer tanto seu pousar sobre meus lábios. então em ar toma a mim inteiro deixando no meu corpo os traços de uma sinestesia que custa minha saúde. quando me sufoca, eu lhe solto e tomamos o ar dançantes afirmando que a atmosfera é o que eu sopro. por muito entra em mim de hora a hora. me reativa, me empalidece. me aviva e me mata. procurar a sua perda é um desespero que o corpo evidencia em agonia e frenetismo. não é de mim mas preciso tê-lo. rouba meus segundos fingindo dissipar os cortes do espírito. mas a alma nunca cicatriza. mas é companhia. boa parceria para as palavras que não sabem ser faladas. é um trago, um enfado um poemaço corrosivo mas sutil leva-me em tudo quando sou fumaça só não leva meu peito pelo verso que ele abraça * * Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada.

sábado, 27 de maio de 2017

[Orações A Saturno] Meu Nome Vilma - Edhson J. Brandão


Meu Nome Vilma

Edhson J. Brandão

eu lhe faria um doce agrado se aqui me estivesse mas de poeira que hoje sou e de lembrança que em você, estou, restam-se então as delícias do meu tempo que já foi. carregue então as flores em aventais para que eu me sinta próxima a você e depois deposite-as no mais calmo abraço e veja que as mãos, hoje suas, estão quentes como outrora. eu me tinha, perdão, não sabia. mas deixo, precioso o meu colo entre os meios de cada dia.

 *

Quem sabe dos mundos, reza. Pedaço de vela afoita acendida próxima aos pés de santa. Aparecida. De fé é feita a fuga para um sofrimento que não se nega. Tênue. Ele se dissipa entre as veias e cada músculo grita um murmúrio apagado porque corpo é denúncia. Vê então que mesmo a procissão postergada até os pés de Maria foi remédio pouco para o ataque que lhe depreciara.
É mulher na cama. Quarenta e dois. Cabelos crespos no corte curto da moda em fim de anos noventa. Vida muita, vida pouca. Logo mais se acaba aquilo que tanto se deseja. Ninguém deseja morrer para ver o que se têm. Como se sofre? Tosses, dores, café e manjericão. Os santos não fogem porque estão presos nas armaduras de gesso. Rezam as crianças noutro quarto, ajoelhadas e crentes, com o terço na mão. O livrinho verde conduz o culto. Eles querem, precisam, clamam. Não sabem se pedem o que pedem. Cura e libertação custam caro e muitas das vezes não surgem como desejamos. Então venha. Clamam às rainhas. Nossa Senhora das Dores. Rogam. Um benzimento infante. Qual poder tem as crianças diante dos espíritos santos? Passam boleta por boleta. Santíssimo rosário em contas de plástico. Lembrança de Aparecida. Elas rezam.
Os adultos na cozinha enquanto a enferma dorme ensaiam o luto adiado, logo mais terão compromisso. Olheiras, pires, bijuterias, moletom e meia-calça. Não há roupa certa para a ocasião. Uma delas chora escondida. Chora internamente. As lágrimas surgem por detrás do globo ocular e queimam os vasos sanguíneos até as narinas, passando pelas papilas para soar o salgado gosto da derrota e tomam as tranqueias para expelirem-se em gás pelos pulmões.
Então a gente se reveza, amanhã venho depois das três porque termino as coisas até meio-dia, deixo o almoço pra janta pronta, passo no banco e venho. Você precisa descansar, Gordo.
Tudo bem. Eu não vou negar, Mima. Eu realmente preciso descansar mas aguento o tranco até amanhã. Uma tarde de sono em casa, lugar que não volto há quinze dias, e depois pego umas roupas limpas e volto aqui. Então fico pronto pra mais uns dias. Muito obrigado, vocês tem ajudado muito.
Que isso, a gente é família. Estamos pra se ajudar. Deixa eu lavar essa louça.
Cadê os meninos?
No quarto, rezando.

Que bonitinhos, Gordo pensou. As crianças possuem a capacidade única de se envolver nas situações mais difíceis e não se deixarem derrubar pelas fomes dessa vida. Ele, a Mima, Clóvis e Marta mal conseguem o tempo para a igreja. A reza é na cabeça o tempo todo, mas praticar o que precisa... nada disso vem.[...]

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Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo apenas quando há - nada. 

sábado, 20 de maio de 2017

[Orações A Saturno] Dar - Edhson J. Brandão


Dar

Edhson J. Brandão


tudo vai ficar uns quatrocentos reais. TUDO ISSO? NÃO TEM COMO FAZER MAIS BARATO? não tem não, minha filha. o que te fizeram foi muito forte. cê acha que vai ser barato pra mim desfazer esse enredo? MAS ESSE DINHEIRO EU NÃO TENHO AGORA. COMO VOU FAZER? se tiver uns duzentos eu consigo dar uma aliviada. TUDO BEM, DO QUE PRECISA? dois frangos machos, um litro de dendê, farinha de mandioca grossa...

MAS O SANTO COME TUDO ISSO? POR QUE TENHO QUE DAR TANTA COMIDA? você quer se livrar do cara ou não quer? EU QUERO. MAS TO ACHANDO QUE É MUITA COISA PARA DAR AGORA.
minha filha,
quem deu primeiro

foi você.

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Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo apenas quando há - nada. 

sábado, 13 de maio de 2017

[Orações A Saturno] A vida inda toca - Edhson J. Brandão


a vida inda toca

edhson j. brandão (conhecido pelo suicídio desistido)




o homem do conserto não vem para deixar Jurema em alaridos e convulsões histéricas por conta dos panos de prato que não estarão brancos e reluzentes de cândida nos seus varais até o dia de sábado.
o homem do conserto não vem para ocasionar um intermitente quebra-pau na Casa dos Pereira uma vez que Jurema se recusará a fazer suas vezes de mulher naquela noite como troco para o marido que não pagara os serviços do ausente.
o homem do conserto, sabemos, não vem e como todo o transtorno será  pouco ainda teremos Laryssah urrando pelos corredores que suas calças e calcinhas ainda não estariam lavadas e como ela se apresentaria para Walter Emanoel no final de semana?
tanto escândalo resultando na pressão psicológica que o Pereira iria sofrer até comprar roupa nova pra filha de dezessete que só usava moda de boutique.
(não comprar seria para Pereira a tragédia já muito adiada do seu  bom casamento cristão, uma vez que Laryssah, sua filha, entregaria para a mãe as inúmeras cantadas em torpedos e sms’s que o pai já dera em todas as suas amigas pedindo para lamber suas vaginas.)

o homem do conserto não vem para abençoar a Casa dos Pereira em incêndios e dramalhões.
uma máquina quebrada, a sua falta e eu com um resto de prosa.
se o homem do conserto não vem, pouco me interessa.
a vida inda toca.
ding, dong.
esperem aí.

não é ele na porta?

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Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo apenas quando há - nada. 

sábado, 22 de abril de 2017

[Orações A Saturno] Nada - Edhson J. Brandão


Nada

Edhson J. Brandão

Entrou. A sala amarela já o esperava, era uma velha conhecida.
― O que foi dessa vez, Miguel?
Sua apatia servia de arma para todas as situações. A agressividade dos outros era algo com qual ele lidava facilmente. Permaneceu calado, mínimas expressões.
― Hein? Vamos, menino! Diga logo. O que foi dessa vez?
Os gritos e os berros já não o atingiam mais. Aos poucos todo o nosso corpo cria escudos e defesas para aquilo que nos atinge com mais frequência. Os ouvidos dele já eram peritos em ouvir vociferações, ameaças, repúdios e ofensas. Qualquer maré de ódio chegava a ele como uma leve marolinha.
― Fale alguma coisa! Se defenda pelo menos. Ande! Não me faça perder a paciência!
Seus olhos negros e redondos tinham como alvo as rugas marrons que se formavam ao longo da face que o tentava. Observava os dentes, eram sujos com as placas bacterianas. A pele, um tanto flácida por causa da idade, exibia pequenas varizes e marcas de alguma alergia mal tratada.
― É sempre você! Sempre você! Quando é que você vai cansar disso? Quando? Ninguém mais te aguenta!
As olheiras inchadas mostravam poucas horas dormidas. Olhou os cabelos, grisalhos e tingidos de um castanho puxado para o cobre. Tentou contar os fios brancos enquanto se assustava com dois tapas na mesa.
― Meu português já está acabando, garoto! Vamos! Diga algo! Ou vamos ter que te enviar para o Conselho Tutelar?
Distraiu-se ao contar. Atentou-se para o colar de contas no pescoço. Barato. Já tinha visto algo parecido quando foi com a mãe ao centro da cidade. Quis comprar um pra ela, mas cadê o dinheiro? Trinta e seis contas fechadas com um pingente em forma de coruja.
― O que sua mãe vai dizer a hora em que for te buscar lá, hem? Você não pensa nessas coisas?
As corujas são animais misteriosos, ele sabia. Uma vez teve um professor que contou, porque gostava muito delas. Representava a sabedoria, a inteligência. Já desenhou várias corujas, diversas vezes. Viu umas e outras.
― A escola já está cansada de você! Can-sa-da! – a cada sílaba uma batida na mesa - E você, não está cansado disso tudo? – e foi aproximando levando seu rosto bem próximo ao do menino – Você não está cansado dessa vida?
Finalmente os olhares se encontraram.
― Responda só uma pergunta, Miguel. Só uma. Apenas uma e você some da minha frente. O que você acha que nossa escola pode fazer por você?
Os olhos rodearam a sala e pararam nos dedos encardidos que estavam entrelaçados no meio das pernas.
― Diga. O que escola pode fazer por você?
― Nada.

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 

sábado, 15 de abril de 2017

[Orações A Saturno] Claridão - Edhson J. Brandão



Neusa Maria Fagundes Peres
61, viúva, pensionista.

Claridão. O primeiro sintoma de vida pós-uterina, a certeza do início. Claridão e luz e o tempo já pode ser contado.
Acenderam a luz daquele quarto branco. Dez e meia da manhã. Quisera ser um parto, mas era gestação. Novamente. Dona Neusa vivia aqueles duros meses como uma segunda gestação. Não estava sendo fácil. Mas não podia reclamar, pois tudo poderia ser pior. Ainda que naquele ambiente de cama hospitalar, visitas a partir das catorze, enfermeiras, veias, cadeira dura para acompanhante, terços, bandejas sujas, oxímetro de pulso, livros, chave de carros, eletrocardiográfico, tudo ali –  era bonitinho – nas contas do convênio. O quarto quinze da ala sete no corredor três tem sido seu principal destino naquelas últimas estações. Não era necessário tanto tempo com acompanhante, já lhe disseram, nesses casos o próprio serviço do hospital cuida de colocar alguém para constante observação. Mas mesmo assim, sentia-se melhor indo religiosamente lá. Gastar horas de dias e noites ali, sentada. Vez e outra lia alguma coisa, rezava mais um pouco, conversava e ligava a TV. A solidão foi um presente dado sem nada para ser recompensado. Quando fazer não tinha, parava os olhos em cima da filha. Ali. Repouso eterno. Chorar já chorou demais. Convenceu-se de que lágrimas não regam esperanças e sim dores. Olhava. Em cada traço percebido pelos seus velhos olhos, já gastos pela vida, recordava um pedaço de história. Ou um dilema. Ou uma briga. Um abraço. Um beijo. Cortesias. Hoje eram só memórias.
 Dona Neusa costumava sair de sua casa as dez da manhã porque dava tempo de rezar uma ave-maria, pegar o pão e recolher as roupas do varal dormidas na lavanderia. Depois das dez era bom porque se precisasse passaria no banco, já pagava alguma conta ou sacaria dinheiro. Pensão do marido. Então seguia pela Hortências até o ponto. Lá pegava o cento e nove, São Lourenço, que parava na porta do hospital. Então dava bom-dia para as meninas do hospital, comentava algo sobre o turno do dia, tomava o elevador, cumprimentava os enfermeiros, se desse falava com o doutor Jair, se não seguia até o quarto e entrava na porta quinze. Todo dia ali era lugar de se consumir esperanças. Mas, até o então, frustradas. Porém sempre agradecia pois houve dias em que não pôde entrar naquele quarto e nem em qualquer outro da ala sete. Houve dias em que teve que subir um andar a mais, esperar pelo horário espremido da visita e pode ficar com a filha por poucos minutos porque na UTI funcionava assim. Com o coma estável foi possível descê-la para este quarto, de agora. E por menos que seja encontra-la no ali e no agora era confortável. Jamais deixaria a filha. Era mãe. E todo mundo sabe que prova máxima de amor na mulher é o ser mãe. O elo nu existente ente uma criatura, geradora, e outra, gerada, é a aliança mais forte do ser humano. Ninguém separa o que as horas colocaram juntas. E por mais descrenças que já quiseram impor a Dona Neusa, ela sempre esteve firme. Um dia acorda porque Deus é justo. Alguns já contavam dias, deram anos contados de vida à Joaquina. Que absurdo. Vegetava, morta-viva, se desligassem os aparelhos, adeus e tudo mais. Chegaram a discutir sobre eutanásia. Dona Neusa nunca ficava quieta, persistia na sua fé. Porque Deus ministrava as coisas com perfeição e se era pra ela, Neusa, gerar a mesma filha duas vezes ela o faria. Mas a verdade é que esta gravidez tinha sabor de angústia. As olheiras que o digam. Tantas noites sem dormir, remédio para a pressão, taquicardias, formigações, mas choros não. Bastavam.
[...]

Trecho do romance interrompido "As horas da vida".

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Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 

sábado, 8 de abril de 2017

[Orações A Saturno] Leitura - Edhson J. Brandão



Leitura

Edhson J. Brandão

eu não aguento mais e não sei o que fazer já tentei de tudo eu coloco auxiliar eu coloco a estagiária e coleguinha pra ajudar mas ele não quer fica o tempo todo pra cima e baixo cutucando os outros fazendo gracinha e nada de lição vou te falar ele vai se reprovado porque não sabe ler. NÃO SABE LER.
― Mas em casa ele lê. Ele sabe.
como? lê o quê?
― Clarice Lispector.
clarice lispector só podia ser essa louca.
― Sinto muito.

(Fim da reunião registrada pela Coordenadora Amélia entre a mãe de Olímpico e a Professora Milda).


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Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada.