Nada
Edhson J. Brandão
Entrou. A sala
amarela já o esperava, era uma velha conhecida.
― O que foi
dessa vez, Miguel?
Sua apatia
servia de arma para todas as situações. A agressividade dos outros era algo com
qual ele lidava facilmente. Permaneceu calado, mínimas expressões.
― Hein? Vamos,
menino! Diga logo. O que foi dessa vez?
Os gritos e os
berros já não o atingiam mais. Aos poucos todo o nosso corpo cria escudos e
defesas para aquilo que nos atinge com mais frequência. Os ouvidos dele já eram
peritos em ouvir vociferações, ameaças, repúdios e ofensas. Qualquer maré de
ódio chegava a ele como uma leve marolinha.
― Fale alguma
coisa! Se defenda pelo menos. Ande! Não me faça perder a paciência!
Seus olhos
negros e redondos tinham como alvo as rugas marrons que se formavam ao longo da
face que o tentava. Observava os dentes, eram sujos com as placas bacterianas.
A pele, um tanto flácida por causa da idade, exibia pequenas varizes e marcas
de alguma alergia mal tratada.
― É sempre você!
Sempre você! Quando é que você vai cansar disso? Quando? Ninguém mais te
aguenta!
As olheiras
inchadas mostravam poucas horas dormidas. Olhou os cabelos, grisalhos e
tingidos de um castanho puxado para o cobre. Tentou contar os fios brancos
enquanto se assustava com dois tapas na mesa.
― Meu português
já está acabando, garoto! Vamos! Diga algo! Ou vamos ter que te enviar para o
Conselho Tutelar?
Distraiu-se ao
contar. Atentou-se para o colar de contas no pescoço. Barato. Já tinha visto
algo parecido quando foi com a mãe ao centro da cidade. Quis comprar um pra
ela, mas cadê o dinheiro? Trinta e seis contas fechadas com um pingente em
forma de coruja.
― O que sua mãe
vai dizer a hora em que for te buscar lá, hem? Você não pensa nessas coisas?
As corujas são
animais misteriosos, ele sabia. Uma vez teve um professor que contou, porque
gostava muito delas. Representava a sabedoria, a inteligência. Já desenhou
várias corujas, diversas vezes. Viu umas e outras.
― A escola já
está cansada de você! Can-sa-da! – a cada sílaba uma batida na mesa - E você,
não está cansado disso tudo? – e foi aproximando levando seu rosto bem próximo
ao do menino – Você não está cansado dessa vida?
Finalmente os
olhares se encontraram.
― Responda só
uma pergunta, Miguel. Só uma. Apenas uma e você some da minha frente. O que você
acha que nossa escola pode fazer por você?
Os olhos
rodearam a sala e pararam nos dedos encardidos que estavam entrelaçados no meio
das pernas.
― Diga. O que
escola pode fazer por você?
― Nada.
* *
Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada.

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