Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta projeto láquesis. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta projeto láquesis. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

domingo, 2 de setembro de 2018

[Projeto Láquesis] Necrotério - Sarah Drummond




 A velha senhora caminhava lentamente pela calçada, o som de seus
paços se intercalava entre o toque macio do calçado que ela usava, e o
baque duro da bengala de madeira que usava para caminhar. Entrou no
prédio frio e escuro e foi auxiliada por um jovem que trabalhava lá a
para chegar a recepção.
    Falou por que estava ali para a jovem recepcionista, e ignorou o
olhar de pena com que ela a olhava, nunca em sua vida havia sido
conivente com aquele tipo de olhar em relação a ela, e não era com a
idade que tinha que começaria a ser.
    Passou as informações dele, e sua voz fraquejou ao falar seu nome,
mas sua expressão era séria em meio as linhas que marcavam o mapa de sua
vida. Mais uma vez, enquanto ia para o elevador, o jovem a auxiliou,
quando entraram ela se apoiou em sua bengala, pedindo perdão a Deus.
    - Eu lhe dei todas as surras que ele merecia, contou a ele, - E o
amei mais que tudo. Deus não a respondeu, ele nunca respondia, mais com a idade que
tinha já havia se acostumado com o seu silêncio.
    Contra o peito, carregava uma foto dele, de quando ainda era
criança. Da época em que as colagens para o dia das mães feitas na escola em papel crepom, eram levadas para casa e entregues à ela. Quando ainda era fácil agrada-lo, televisão, um pote cheio de bolacha e leite com tod,
era o suficiente para que ele fosse feliz. Mas ele cresceu e passou a
querer celular, roupas da moda e cadernos de capa dura,. Ela lhe deu
tudo apesar de não ter muito dinheiro. Até que ele largou a escola e começou a andar com a turma do Duda, com quem conseguiu um trabalho  para ganhar dinheiro fácil. Ela gritou com ele,
e implorou para que ele voltasse para a escola, mas ele a ignorou.
Quando suas dívidas vieram ele começou a vender suas coisas para pagar,
e quando ela tentou impedir apanhou. Naquele dia ela soube que o menino
doce que ela havia criado já não existia mais.
    Noites antes havia acordado assustada, seu primeiro pensamento foi
ele, se levantou lentamente e caminhou pela casa, se apoiando nas
paredes, indo na direção de seu quarto. Quando abriu a porta, percebeu
que ele continuava da mesma forma que ela o havia arrumado a pouco mais
de duas semanas. Entrou e sentou em sua cama, passando a mão lentamente
pela sua coberta favorita.
    Ouviu a noticia no jornal do meio dia. O corpo foi encontrado no
matagal da favela vizinha dois dias antes, e ainda não havia  sido
identificado.
 Ela colocou o seu casaco mais quente e pegou quatro ônibus para só então chegar até ali.
    Eles entraram na sala fria e escura, cercada por portas prateadas,
mas o que se destacava era a grande mesa. nela, um corpo imóvel coberto
por um lençol branco. Logo, as lagrimas estavam em sua garganta, e
 seus paços, enquanto caminhava em sua direção eram mais lentos.
    Quando o lençol foi abaixado ela o viu, Levi, sua criança, seu rosto
congelado em uma expressão de dor. Sentiu algo úmido e quente escorrendo
por seu rosto, percebeu que eram lagrimas, e os soluços que  encheram a
sala eram do mais profundo desespero.
(Sarah Drummond)

sábado, 1 de dezembro de 2018

{Projeto Láquesis} O espetáculo - Sarah Drummond





       
  

O espetáculo 



"O preconceito eleito
A culpa imoral
A violência descabida
Orientação sexual
Falta de respeito
No púlpito, no pleito
Homofobia, quem diria!
Amplificada pela ma-fé!
Homem, mulher
Somos todos bichos
Nichos de mercado
Datados!
Dotados de amor e querência
Por isso não esqueça:
Onde sobra intolerância, falta inteligência!" 
(O teatro magico)

        A noite parecia calma. Na Rua Central, pouco movimentada àquela hora da noite, um casal caminhava pela calçada, voltando de um espetáculo de dança apresentado em um
teatro ali perto. Matias estudava dança na faculdade de arte da cidade, e estava encantado por ter assistido a releitura de um dos musicais mais antigos do mundo, Caio, qu estuda cinema, estava muito mais interessado nos efeitos visuais. Por isso, conversavam empolgados quando tudo aconteceu.
        Conheceram-se na praça de alimentação da faculdade, e tudo aconteceu rapidamente, saíram juntos, com o mesmo grupo de amigos naquela mesma noite, foram para um bar  de Rock, não muito longe do teatro onde o espetáculo aconteceu, ali, sem que nenhum dos dois tivesse bebido, pois não gostavam de bebida alcoólica, trocaram o seu primeiro beijo.
        Na semana seguinte Caio jantou com a família de Matias, onde foi muito bem recebido pela sua família. Matias conheceu Ana Carolina, a Mãe de caio, em um restaurante de comida Italiana no centro da cidade apenas alguns dias depois, e o jovem carismático conseguiu arrancar alguns sorrisos da sempre severa advogada.
        Eles se amavam, e suas famílias se davam bem, o que fazia com que seu relacionamento fosse incrível, não perfeito, pois eles eram muito diferentes um do outro e tinham  personalidadesfortes. A teimosia de Caio e o orgulho de Matias quase acabaram com tudo no sexto mês de namoro, que foi quando suas famílias intervieram, dizendo a eles todos os motivos pelos quais eles deveriam ficar juntos. Duas semanas depois eles voltaram.
        O par de ingressos para o espetáculo foi o presente de um ano de namoro de Caio para Matias, que ficou simplesmente estonteado, pois havia ficado muito decepcionado quando tentou comprar ingressos e descobriu que já estavam esgotados. Por isso, enquanto andavam pela rua, naquela fatídica noite, pensava um pouco inseguro sobre o seu presente para Caio, que comentava sobre os efeitos de luz no palco, Sem se dar conta que os pensamentos de Matias estavam distantes.
        Tudo aconteceu rapidamente, e a reação dos meninos foi lenta.
        - Está tudo bem? - Caio Perguntou, apertando a mão de Matias na sua, fazendo com que ele o olhasse.
        - Sim, eu só estava... - Matias foi interrompido por uma voz masculina e zombeteira
        - Olha só o que temos aqui... - Disse um rapaz alto e musculoso, da idade dos garotos ele parou, travando o caminho dos meninos, na companhia de mais quatro jovens
- dois viadinhos dando sopa...
        Seus amigos fizeram expressões idênticas de nojo
        - Sabe o que eu faço quando eu vejo viadinhos dando sopa? - ele perguntou, olhando para Caio com os olhos cheios de ódio.
        Caio abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não teve tempo, foi pego de surpresa com um soco em baixo do queixo que o levantou do chão... Matias teve o seu grito de revolta e medo interrompido por um soco em seu estomago.
        Foi a câmera de segurança de um banco que filmou os Quatro minutos diretos em que os meninos foram agredidos, apenas a duas quadras do bar onde trocaram o seu primeiro
beijo, a ultima coisa que Caio viu antes de perder a consciência e entrar no coma profundo do qual nunca mais saiu foi à calçada de paralelepípedos manchada com o seu sangue, e seu ultimo pensamento foi Matias, que sobreviveu a agressão brutal, porem ficou tetraplégico e entrou em uma depressão profunda. E assim, terminou uma historia de amor que poderia ter sido linda e duradoura, o crime cometido contra os meninos ficou em pune, mesmo Que Ana Carolina tenha usado todos os recursos que tinha para obter justiça pela morte precoce do filho lindo e sonhador...

quinta-feira, 28 de junho de 2018

[Projeto Láquesis] No fim das contas - Davyd Vinicius




                Ao acordar, ele abre os olhos lentamente tentando entender o que estava acontecendo. Quando olha para frente, compreende conhecer o espaço que por algum motivo encontra-se em caos.
                Com o seu corpo totalmente adormecido, ele tenta virar-se para o lado, fazendo com que uma garrafa vazia role, percorrendo alguns metros do espaço vazio e empoeirado.
                A luz vinda da grande janela era a única fonte de esperança que ainda restava, iluminando o velho sofá branco abandonado.
-Blimblom - Toca a campainha. O som ecoa pela sala, mas parece surtir mais efeito na cabeça de Richard.
                Em um movimento lento, ele tenta se levantar, porém seu corpo o relembra do ocorrido nas noites passadas. Em um ato quase impossível, ele finalmente consegue ficar em pé, caminha à passos arrastados até a porta, enquanto a campainha continua a tocar.
Abre a porta.
                Com os olhos cerrados, tenta reconhecer aquela figura que esperava do lado de fora. Com muita dificuldade, consegue reconhecer a silhueta magra de estatura pequena. Eles ficam se encarando por alguns minutos, um tempo que pareceu uma eternidade enquanto ninguém se arriscava a dar a primeira palavra.
-Sr. Richard? - Questionou o senhor magricela.
-Sim. - Respondeu ele com a voz relutante.
-Sou Teodoro, representante do Sr. Louis, o dono do apartamento.
Trago para você uma carta de Louis exigindo a sua saída do imóvel.
-Mas porquê? Não compreendo o motivo.
-Bom, se o Sr. não compreende eu posso lhe explicar. O Sr. está devendo 4 meses de alugueis, além de todas as contas estarem atrasadas.
-Acho que deve estar havendo algum engano, eu estou com os meus alugueis em dia. - Desvia o olhar pensativo. -A não ser o desse mês que está atrasado alguns dias, mas nada que possa ser levado em consideração.
-Peço que me permita entrar para que possamos conversar e entender o que está acontecendo.
Richard dá dois passos para trás, abrindo a porta para que o senhor possa passar.
                Ao entrar, o Sr. para espantado diante da grande sala iluminada.
                Diante dele, o velho sofá que se perdia no amplo cômodo. Mais a frente encostada na parede, uma estante com algumas coisas jogadas.
-As coisas não parecem ir muito bem por aqui, não é Sr. Richard? - Questiona ele ao percorrer os olhos pelo espaço com algumas garrafas vazias pelo chão.
-Realmente, eu não ando em um bom momento. Minha esposa acabou indo embora na semana passada. Nós estávamos em uma relação complicada e as coisas se agravaram ainda mais depois que eu fui demitido do meu emprego. - Responde ele enquanto fechava a porta. -Mas sente-se Sr. Teodoro, creio que possamos resolver esse mal entendido.
-Aqui está a carta do Sr. Louis, creio que se o Sr. ler poderá compreender melhor. - Estende a mão entregando a carta para Richard.
-Me permita ir até o Toalet enquanto o Sr. lê.
-Claro, fique a vontade. Segunda porta à esquerda no corredor. - Diz abrindo a carta.
                Teodoro passa por Richard e se direciona para o corredor até chegar diante da porta fechada. Coloca a mão na maçaneta e antes de abrir ele observa Richard de costas na sala atento ao papel.
                Ao entrar, um banheiro amplo, aparentemente sujo e com um cheiro um pouco forte. Do seu lado direito, uma belíssima pia e um enorme espelho que cobria boa parte da parede, e mais à frente uma banheira coberta por uma cortina.
                Teodoro percebe que a banheira está cheia devido ao barulho de um pingo que caía na água de segundo em segundo e que de imediato começou a incomodá-lo.
                Na intenção de cessar o barulho, ele decide apertar o registro do chuveiro. Ao abrir lentamente a cortina, sem esperar, se depara com o corpo de uma mulher submersa.
                Com um grande susto e em um ato quase involuntário, ele decide sair dali.
                Ao voltar-se para a saída, ele encontra Richard parado na porta.
-Meu Deus Sr. Richard, o que aconteceu com ela? - Diz com o rosto perplexo.
-Você realmente não me pegou em um bom momento Sr. Teodoro. Minha esposa me deixou, mas infelizmente eu não consegui deixar dela. - Diz enquanto adentra em passos lentos. Levanta um dos braços e aponta uma arma para o velho. -Mas parece que agora já é tarde demais, já não conseguirei pagar o aluguel. - Ele atira, acertando a cabeça de Teodoro.
                A parede se enche de sangue. O corpo cai e o peso daquela vida se torna ainda mais pesada de se sustentar.
                Ecoa outro tiro. O azulejo branco é preenchido com ainda mais sangue, enquanto outro corpo cai.



Davyd Vinicius

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

[Projeto Láquesis] Além da soda cáustica - Mariane Helena




“Se você pode sonhar, você pode fazer.”(Walt Disney)

Sim, o sonho é possível! Todos nós sonhamos! Mas costumamos (culturalmente) matá-los, antes mesmo de nos dar o direito de se pensar na possibilidade deles virem a ser realidade. Motivos são inúmeros! Por medo de ser ridicularizados, por preguiça, ou comodidade, por ser muito ousado, por ser muito louco... Por medo de ser possível!
 Todos os grandes, foram grandes loucos, grandes sonhadores, grandes questionadores e grandes corajosos! Sim, ir contra a tudo que já se conhece, querer e achar que pode mesmo inteligível, requer muita coragem! Santos Dummont, Walt Disney, Isac Newton, Nelson Mandela, Santo Agostinho, todos LOUCAMENTE GENIAIS, foram grandes conquistadores que mudaram a seu modo a história da humanidade com um “ridículo” sonho.
Minha loucura começou no dia em que decidi tomar soda caustica para matar a dor. Uns falam que é frescura, outros falam que é falta de vergonha na cara ou egoísmo... Na verdade poucos sabem que pra alguns a dor passa ser algo tão desesperador que fazemos de tudo para extermina-la, nem que pra isso o preço seja a própria vida.
Percebi também como o suicida se iludi! Imagina que vai ser fácil e simples... Como se a vida tivesse um botão de desligar e que basta apertá-lo que pronto se extingue a vida! Ilusão! Cada tentativa acarreta mais dor e sofrimento. Há pesquisas que dizem que para cada um suicídio cometido existem cerca de 20 tentativas, ou seja a chance de dar errado é muito maior e que pode trazer consequências irreversíveis; como foram as minhas.
Perdi meu emprego, minha autonomia! Perdi órgãos, perdi o chão... Ganhei limitações, novas dores, mas também ganhei a poesia. Vi o meu despertar para a poesia após está grande calamidade. Passei a escrever após a tentativa de suicídio; que por consequência, me deixou um longo período sem voz (traqueostomizada), foi quando a palavra passou a falar! Comecei a escrever para me expressar, para desabafar, para sofrer, para esconder a dor, para suportar, para aflorar, para voar...
Publiquei meu primeiro livro, como um marco de vitória. Onde relata em poemas com amor e muita leveza o período de mais doloroso de toda a minha história. A fim demonstrar, que tudo coopera para o bem. E assim deve ser encarado. 
Eu, sonhei que poderia ser uma borboleta, na beira da morte quis voar pra vida. Loucura! Os prognósticos diziam não, as dores diziam não, a fragilidade que meu corpo se encontrava gritava que não... As pessoas no fundo de seus olhos se convenceram que não. Também imagina: que possibilidades existiria para uma “louca”, tão louca ao ponto de tentar suicídio, de uma forma tão brutal como por ingestão de soda caustica  e ainda por cima fadada a viver numa cama de hospital, totalmente limitada por sequelas irreversíveis? Mesmo contra tudo e todos até mesmo contra a minha esperança, acreditei que era possível, de alguma forma... de algum jeito... eu iria viver! Acreditei que tudo era possível, pois minha força de viver era maior!
E a fé no que eu não podia ver, me trouxe aqui, se hoje você me lê é porque o meu sonho foi possível. Passaram-se quase seis anos e minhas asas alçaram muito além da minha imaginação. Deram-me: sonhos, um livro, leitores, prêmios, reconhecimento... uma nova vida! As sementinhas regadas com minhas mais sofridas lágrimas, fizeram crescer meu sonho em poesia. A MINHA METAMORFOSE!
Em 2015, recebi o TROFÉU CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE – EDIÇÃO ESPECIAL OURO como destaque do ano! Em 2016, recebi o TROFÉU CECILIA MEIRELLES – MULHERES NOTÁVEIS como um mulher de destaque na literatura nacional! Em 2017, recebi além do Troféu CASTRO ALVES – EXCELENCIA LITERARIA pelo meu primeiro livro, recebi o titulo de COMENDADORA DE LITERATURA, entre muitas outras!  Honras inimagináveis pra mim, e um privilégio, principalmente, por estar dentre os grandes nomes da literatura do nosso país.
E o que foi isso? Sorte? Não! Sonho! Quando você empenha todas as suas forças em prol de um objetivo, você não alcança apenas a Lua, mas também navega pelas estrelas.
Alguns dizem que a partir do momento que você se dedica a correr atrás de seu sonho, que o universo começa a conspirar em seu favor. Eu acredito que não haja conspiração, apenas você traz à existência algo nato, que sempre esteve aí dentro de você. Li uma vez, que Deus não tem sonhos, pois é perfeito, então, criou o homem para sonhar através dele.
Portanto, quando conquistamos nossos sonhos, simplesmente entramos de acordo com os sonhos que Deus sonhou para nós desde o principio.
Seja qual for o tamanho do seu sonho, Creia! Pois tudo é possível ao que Crer!
(Mariane Helena)

quinta-feira, 26 de julho de 2018

[Projeto Láquesis] Bella - Joana Hortz



Tudo começa pelos cabelos com suas ondulações e seus aromas, depois disso passa pela nuca, pela clavícula, os seios assimétricos, braços, dobrinhas. Por fim, chega as pernas com suas celulites e estrias. Fiz todo esse percurso que faz parte de mim, tantas vezes que até perdi a conta. Olhando e analisando novamente no espelho - que muitas vezes tentei evitar - todas as minhas imperfeições, todos os detalhes e lugares fora do lugar que me deixavam tão angustiada. Minha pele muitas vezes ficava vermelha, pois eu a puxava com ardor esperando que aquela carne sobrando não fizesse mais parte de mim. Que meu ser fosse finalmente puro e dentro dos padrões.
Houve tão poucos momentos nos quais me senti amada e que me amei, que mal guardo essas memórias em mim, estão fragmentadas como um sonho distante. Porém aquele momento era um deles, pois eu tinha alguém comigo. Alguém cobiçado por outras mulheres também, e que estava comigo mesmo eu sendo gorda. Era o nosso primeiro encontro, onde conheceria seus amigos.
- Você vai com essa roupa mesmo? Não está mostrando muito seu corpo? - Ele perguntou enquanto eu vestia meu vestido favorito, que realçava meu busto como nenhum outro.
- Mas Carlos… Está tão bonito. - Eu respondi chorosa.
- Você está muito gorda com ele, seus peitos estão pulando para fora. Está horrível. - Ele respondeu abotoando sua camisa.
- Mas…mas.. - Não adiantava discutir.
Vesti um calça comum e uma camiseta bem fechada para que ele não reclamasse, então fomos para o encontro.
Lá pelo meio do jantar, todos já estavam um pouco embriagados, menos eu que não bebo. Haviam muitos homens lá, mas me senti protegida ao lado do meu namorado, mesmo todos me observando com olhares enviesados.
- Então… Sua namorada deve dar trabalho, não é? - Perguntou um deles, que se chamava Gustavo. Tinha cabelos loiros e ensebados.
- Por que eu daria? - Disse rindo.
Ele não me respondeu, era como se eu estivesse falando com as paredes.
- Claro que dá! Toda vez que ela sobe em mim eu perco o ar! - Respondeu Carlos seguido por um coro de gargalhadas.
- Espero que tenha seguro de vida. - Pronunciou um terceiro, que eu não lembrava o nome.
Todos riam sem parar. Aquele som uníssono de risadas e deboches sobre mim me esmagava, e eu me senti tão insignificante que nem ao menos consegui abrir a boca. Então eu ri, uma risada amarela junto a eles. Pensei que logo aquilo iria passar, que iriam mudar de assunto, que chegaria o momento de ir para casa.
Carlos bateu em minhas costas como se fôssemos velhos amigos, ou como se estivesse batendo no lombo de uma vaca, não soube diferenciar.
Tinham alguns petiscos em cima da mesa e eu estava morrendo de fome, no entanto, nem ao menos belisquei um petisco sequer para não ser alvo de mais chacotas devido ao meu corpo.
- Essa daqui da um tranco e tanto!
- Duvido que consiga enxergar seus pés, consegue? - Perguntou Gustavo, enquanto dava uma longa golada em seu chopp.
- Consigo… - Disse, sentindo-me esquentar, tanto de vergonha como de raiva.
Aquilo não parecia estar acontecendo, desde quando meu namorado deixaria que falassem daquele jeito comigo? Todos pareciam me olhar como se eu fosse um porco pronto para o abate.
- Espera, espera, espera. - Disse Gustavo batendo a caneca na mesa.
Todos os cinco membros da roda o olharam.
- Carlos, sua namorada é tão gorda, mas tão gorda que usa lona de circo para se vestir! - Disse cuspindo.
Todos riram de engasgar e eu me levantei da mesa.
- Vou para casa. - Disse sentindo meus olhos marejarem.
- Amor, fique aqui. Estamos apenas brincando. - Ele disse, segurando-se para não rir. - Não tem motivo para ficar assim.
- Não, eu quero ir. – Insisti com veemência.
Ele se levantou e apertou meu braço com violência.
- Não, você vai ficar. Porque eu a trouxe até aqui, para conhecer meus amigos e não quero passar vergonha! - Respondeu seriamente.
- Já está, meu amigo, olha o tamanho dessa jamanta! - Era outro amigo de Carlos, Alberto, que ainda não tinha se pronunciado.
Carlos não respondeu, ficou me encarando, esperando que eu sentasse e ficasse calada
- Não vai me defender? - Eu perguntei.
- Estamos apenas brincando. Você não entende, falamos desse jeito um do outro, é brincadeira de homem. Pense pelo lado bom, estamos te incluindo na conversa. - Disse tranquilamente. - Eu faço tudo isso, porque eu te amo.
- Não quero participar dessa brincadeira, me solte! - Disse tentando puxar meu braço.
Antes que eu pudesse protestar novamente, ele me puxou para um lugar afastado onde deviam ser os fundos do barzinho onde estávamos e seus amigos o seguiram.
- O que você está fazendo? - Perguntei já sentindo o vento frio do lado de fora.
O ambiente estava deserto.
- Te ensinando a me respeitar! Não quero passar vergonha. - Retrucou.
- De mim? Me diga, por favor, se tem tanta vergonha de quem eu sou, por que me namora? - Gritei.
Todos os amigos dele riram.
Carlos veio em minha direção, apontado seu dedo para minha cara, seu olhar era de um assassino e isso me causou calafrios que percorreram minha espinha.
- Me escute com muita atenção: Você nunca irá achar alguém como eu, você nunca irá arranjar mais ninguém! Olhe pra você! - Gritou e me olhou de cima para baixo com desprezo. - Então, eu acho melhor você me respeitar e parar de agir como uma idiota.
Senti cair sobre meus joelhos, aquilo já tinha ido longe demais. Poderia aguentar toda aquela humilhação, poderia aguentar as privações e a falta dos meus amigos, tudo isso pelo relacionamento, mas saber que a própria pessoa com quem eu estava me desprezava, era dilacerante.
- Então arranje alguém para você! Alguém como você! - Respondi chorando.
Alberto se aproximou.
- Sabe, o Carlos é o tipo de cara que faz caridade.
Nunca me senti tão insignificante e acuada. Ele estava comigo apenas para tirar sarro da minha cara?
- VÁ A MERDA! - Disse a plenos pulmões.
- Olha só, a porquinha sabe xingar! – Zombou Gustavo.
Carlos cerrou os punhos e me lançou um olhar frio.
- Cara, relaxa. Deixa a jamanta ir embora. – Falou o qual eu não sabia o nome.
- Me deixa em paz. - Disse para o seu amigo. - Você nunca mais irá falar desse jeito comigo!
- Tá bom cara. - Ele respondeu se esquivando para longe.
- Cara, deixa ela! Vamos embora! - Gritaram eles.
Ele veio se aproximando aos poucos, com as mangas da camisa erguidas e seu olhar gélido para mim. Vagarosamente como se eu já estivesse abatida, e eu não poderia fazer nada para me defender. Gritar? Quem ouviria meus gritos? Correr? Não tinha saída. Eu o amava, mas pelo jeito não me amava o bastante para fugir.
Nesse momento eu senti, primeiro um puxão no cabelo, um ardor no rosto seguido de um gosto de sangue pela minha boca, uma dor na clavícula e chutes que se prolongavam pela minha perna. Eu não disse nada, para mim aquilo não era real.
- Isso é pra aprender a se comportar. - Escutei sua voz abafada.
Todos foram embora, e as risadas cessaram. Fiquei ali no chão, observando o letreiro do bar ficar amarelo, depois vermelho, azul, amarelo...

quinta-feira, 24 de maio de 2018

{Projeto Láquesis} De volta para casa - Sarah Drummond





                                                                              De volta para casa 
                  arah Drummond

               Desliguei o fogo do macarrão e voltei a cortar a salada, ao longe ouvia o barulho de Daniel e as crianças na piscina, podia claramente distinguir os gritos de Fernanda e as gargalhadas de Felipe, sorri comigo mesmo por que minha vida era perfeita. Bem, nem tão perfeita assim, mas... Ela era minha e eu era feliz...
               Dês de os quatorze anos, quando realmente descobri e aceitei quem eu realmente era eu sabia que não seria fácil, eu tinha certeza que sofreria... Eu sabia que o mundo onde vivo é intolerante e cruel...
               Eu estava certo... Eu sofri, contei ao meu pai quando completei dezoito anos. Não foi planejado, mais eu sempre fui impulsivo. Nós estávamos tomando café da manha e ele lia o jornal, quando ele fez um comentário sobre a parada gay.
               - Deviam jogar gasolina sobre toda essa gente e tacar fogo, - disse, a voz com um tom neutro, como se tivesse dado uma sugestão da cor da camisa que uma pessoa deveria usar.
               Não sabia sobre o que ele estava lendo e perguntei, quando ele respondeu, as palavras simplesmente saíram da minha boca sem que eu pudesse controlá-las
               - Se tivessem feito, eu estaria morto agora
               A discussão que se seguiu foi a pior de toda a minha vida. Disse a ele e repeti incontáveis vezes as palavras que eu sabia que o machucavam. Eu queria machucá-lo, queria me vingar pela indiferença com que ele me tratava dês de a morte da minha mãe.
               Naquele mesmo dia fui expulso de casa, não com uma mão na frente e outra atrás, ele me deu dinheiro e um lugar para morar, bem longe dele por que afinal ele não podia aceitar-me perto dele sabendo o que sabia, mas, ainda me amava e eu ainda era seu filho e ele devia cuidar de mim.
               Realmente foi melhor do que eu esperava. Se a sua atitude me machucou? Fez, e muito, a sua força, carinho e afeto me fizeram muita falta nos anos que se seguiram, pois, perdi a única pessoa que eu tinha no mundo, enfrentar tudo que eu enfrentei sozinho não foi fácil
               Fui demitido de empregos, expulso da minha faculdade por um diretor homofóbico que era aparentado com um vereador, apanhei de malandros e sofri inúmeras desilusões amorosas... O fato de ser muito fechado não me permitiu ter muitos amigos, o único que eu tinha estava fazendo um intercambio em Londres.
               Por tanto, não tinha ninguém em quem eu pudesse despejar as minhas frustrações, apenas eu comigo mesmo. Durante muitos destes momentos me arrependi, sim, eu me arrependi de ter contado ao meu pai, durante alguns momentos me odiei por ser quem e o que era. Mas estes momentos passavam rápido, pois eu sabia que a melhor coisa do mundo é poder ser você mesmo, e saber que as pessoas ao seu redor amam quem você é, não quem eles pensam que é.
                Meu pai, mesmo sendo uma figura calada e na dele ainda fazia falta. Seu abraço era o melhor do mundo, eu sabia, e me lembrava dos meus tempos de criança, quando minha mãe era viva e meu pai uma pessoa alegre e cheia de vida.  Eu tenho raiva dele, raiva por não estar ao meu lado quando eu precisei dele, e não só ai, mais nos momentos felizes da minha vida...
               O dia de minha formatura, lembro da sensação, todas as noites mau dormidas, os dias exaustivos, as horas sem fim estudando para finalmente estar ali, em frente a todas aquelas pessoas, pegando o meu diploma, me formando naquilo que eu sabia era a profissão da minha vida.  Mas, quando olhei para a multidão, não vi o seu rosto, cheio de orgulho por mim como eu sonhei que aconteceria...
               No dia do meu casamento, que, sem duvidas foi o dia mais feliz da minha vida, me casei com o cara que um dia, no ensino médio eu soquei a cara por ter me chamado de bicha fresca... Bem, a vida tem destas surpresas mesmo. Na festa apenas os amigos e parentes de Daniel, e Erick, meu melhor e único amigo, que havia voltado de Londres uma semana antes.
               Se eu o entendia? Sim, ele era de uma geração diferente da minha, e mesmo que isso não justifique ainda é uma explicação, era difícil para ele, ainda mais por que eu era o seu único filho homem, e nem um pai quer que o seu filho seja gay, isso não me impedia de carregar uma enorme magoa dele, era mais forte que eu afinal.
               Não sabia realmente por que nas ultimas semanas vinha pensando nisto com freqüência, talvez, algo em mim sabia o que aconteceria naquele dia. Esse tipo de coisa realmente acontece? Eu não sei... O fato é que ele apareceu em minha porta aquele domingo que começou como qualquer outro, eu tinha desligado o forno e me preparava para tirar a forma com o nosso almoço quando a campainha tocou.
               Eu abri e ele estava ali, anos mais velho, não nos víamos dês de o dia em que ele me expulsou de casa, e vê-lo ali depois de anos me assustou verdadeiramente. nos olhamos por alguns segundos, assustados um com as mudanças do outro.
               Dei um paço para o lado, abrindo espaço para ele entrar, ele olhou para dentro e depois entrou. Fechei a porta e o acompanhei, ficamos frente a frente, não sei quem deu o primeiro paço, mais quando percebi estávamos abraçados, ele afastou-me, a distancia de um braço e sorriu.
               - você está diferente...
               - eu cresci, - respondi
               Ele assentiu. A porta de vidro que levava a piscina abriu e Daniel e as crianças entraram rindo, Daniel carregava Fernanda as costas. Assim que o notaram ficaram quietos. Daniel entendeu imediatamente o que estava acontecendo...
               - Banho! - disse, colocando Fernanda no chão. Eles Olharam para ele rapidamente e correram para as escadas.
               - Pai, este e meu Marido, Daniel, querido, este é meu pai, José.
               Daniel estendeu a mão e meu pai apertou.
               - É um prazer conhecer o senhor - disse com um leve sorriso.
               Meu pai assentiu
               - Você também, - Respondeu em um tom brusco.
               Daniel me olhou, encolhendo de leve os ombros, e eu sabia o que ele estava pensando, levaria um tempo.
               Fez-se um silêncio constrangedor
               - vou olhar as crianças, - Daniel disse, acenou para meu pai e subiu as escadas
               - senta - eu disse apontando o sofá,
               Nos sentamos frente a frente e mais uma vez ficamos em silêncio. Eu não diria nada, não era assim que deveria ser, ele quem devia começar a falar por que me devia aquilo... Ele olhava para as mãos juntas em seu colo. - você está feliz? - perguntou, erguendo os olhos para mim
               - sim, eu realmente estou
               Ele ficou em silêncio
               - Eu sinto muito, André... Eu só... Eu só nunca imaginei que fosse ter um filho... - ele hesitou.
               - Gay, - eu disse.
               - Bem... sim, eu me assustei, ok. eu não sabia como lidar, eu queria netos e...
               - Você tem três...
               - mas...?
               - Felipe e Fernanda são os mais novos, temos Eduardo com vinte anos, ele está fazendo intercambio em Nova York
                                            - Nossa... - Ele pareceu atormentado, e de repente, vi lagrimas escorrerem de seus olhos... - Eu sinto muito Filho! Eu preciso que me perdoe, não consigo mais viver nesta solidão, e longe do amor do meu filho, que é a pessoa que mais amo no mundo, e se você ama aquele homem La em cima, eu vou me esforçar o máximo para entender e respeitá-lo, e amar meus netos e velos crescer, eu preciso disso... Preciso de você. Eu não conseguia acreditar, ele estava chorando, e José De Nos nunca chorava, olhei para ele, realmente olhei, me perguntei o que aconteceria se eu dissesse que não o perdoava. Eu o magoaria, sem duvidas, talvez assim, ele pudesse e experimentar um pouco do sofrimento que eu senti, sozinho e abandonado, durante todos aqueles anos...
               Ele enxugou as lagrimas que escorriam pela bochecha com as costas da mão, isso me fez perceber que ele havia sofrido também. Ouvi a voz de Daniel em minha mente, "O que você vai ganhar com isso?" Eu me vingaria dele, mas a troco do que? Do meu sofrimento também, então me dei conta que não valeria apena, que se eu o perdoasse ali, naquele momento nós teríamos uma chance. Me inclinei e toquei sua mão, e a apertei com firmeza.
               - Eu senti muito a sua falta, - Disse com um pequeno sorriso.
               Ele sorriu de volta, colocando a outra mão em cima da minha. Eu conseguia sentir um calor se espalhando do meu peito para todo o meu corpo. Eu sabia que não seria um começo fácil, por que mesmo que eu o tivesse perdoado, eu ainda sentia magoa. Mas eu amava o fato de que ele estava ali, que havia pedido perdão, e sabia que eu tinha tomado a decisão certa, por mim, por ele e por nossa família.

               A historia de André se repete todos os dias. Meninos e meninas são expulsos de casa  por conta de sua orientação sexual; E apesar de que nem todas as histórias terminam como esta, eu a escrevi para tentar trazer esperança para quem se identificar de alguma forma com ela.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

[Projeto Láquesis] Você outra vez - Davyd Vinicius





Berlim, 19 de maio de 1995
 Olá querida Helena.
Hoje fazem dois meses que já estou em Berlim, as coisas vão bem por aqui. Minha residência é em um hospital grande, tenho trabalhado bastante e quase não tenho tido tempo para me dedicar à outras coisas.
 Meu visto para trabalhar aqui já saiu e  Minha autorização nacional para atuar como médico também.
 Estou morrendo de saudades.
 Beijos, Kawl.

Após ler a carta, seu celular toca.
-Pronto?
-Hele minha filha, até que enfim atendeu esse celular. Eu já estava ficando preocupada.
-Oi mamãe, desculpe, eu estava arrumando algumas caixas e não ouvi o celular tocar. - Pega a carta que estava em sua mão e coloca em baixo de seu travesseiro.
-Amanhã é o aniversário da tia Zélia, ela fará 95 anos e nós iremos fazer uma festinha para ela...
-Festa em plena segunda? - Pega um pequeno papel de dentro da caixa, olha, amassa e joga-o junto de outros papéis amassados.
-Sim minha filha, você sabe que a gente nunca pode contar muito com o tempo quando se trata desse povo mais velho. - Faz uma breve pausa. -E você sabe que não presta comemorar antes, não é?
-Tá bem, assim que eu sair do escritório passo lá. - Pega um cartão postal de dentro da caixa.
-Nós estamos planejando cortarmos o bolo por volta das 7:00 pm, porque a tia vai dormir super cedo. Vamos aguardar você chegar.
-Tá bem. - Admira o postal recebido de New York.
-Beijos querida, vou levar seu casaco que ficou aqui aquele dia.
-Tá bom mãe, beijos. - Coloca o postal em cima da cama junto com outros postais. Desliga o celular e também o coloca em cima da cama.
        Ela pega mais alguns papéis de dentro da caixa, olha, os amassa e joga na pilha de papéis amassados, à chaqualha de ponta cabeça em busca de outros papéis, mas percebe que não há mais nada. Guarda
algumas cartas novamente dentro dela, tampa e à guarda novamente em cima do guarda roupas.

        Após sair do escritório, Helena vai em direção a seu carro que está estacionado em uma rua lateral do prédio da Brooks, um prédio alto, todo espelhado com um painel de lede gigante que estampa
a edição de setembro da revista.
Quando sai do prédio, se mistura ao mar de pessoas que passam pela movimentada avenida, mas logo dobra na ruazinha aonde está o seu carro. A rua está calma, ela anda alguns passos e logo consegue o avistar.
Ela para diante do carro e logo começa a vasculhar a sua bolsa em busca da chave que havia esquecido de pegar antes de sair. Abre o ziper e logo sente alguém a abraçar por trás.
-Passa a chave do carro. - Diz em voz baixa perto do ouvido de Helena. Ela sente algo encostar em seu quadril.
Com o susto, ela tenta se desvencilhar dos braços do assaltante o empurrando para trás, mas sente que algo perfura suas costas. Ela grita, o assaltante corre, ela cai.

        Abre os olhos lentamente, escuta um bipe que se repete de segundo em segundo. Olha para o lado e logo percebe sua mãe vindo em sua direção.
-Minha filha, graças a Deus, você acordou. - Se aproxima da cama juntando as mãos.
-Mãe? O que aconteceu? - Questiona preocupada.
-Você sofreu uma tentativa de assalto minha filha... O assaltante foi pego e disse que não tinha a intenção de te machucar, mas que você acabou se ferindo quando tentou fugir.
-E a tia Zélia mamãe? - Pergunta preocupada.
Quando sua mãe vai responder, é interrompida com o médico que entra no quarto.
-Com licença, Helena? - Pergunta olhando para ela.
-Isso, você é o Dr. Mark, não é? - Responde a mãe de Helena indo em direção a ele.
-É... Na verdade não, o Dr. Mark é meu amigo, ele irá passar por aqui em breve... Eu me chamo Dr. Wistern. - Aperta a mão dela enquanto Helena os observa. -Ele teve um contra-tempo e vai se atrasar um
pouco. Vim ver como você está. - Fala olhando para Helena.
-Estou bem Dr. só com um pouco de dor nas costas.
-Pois é, você teve sorte, o corte passou bem perto do seu pulmão. Mas ainda bem que não atingiu nada. Acredito que amanhã você já poderá ir para casa. - Fala olhando para um raio-x.
Quando ele se vira, Helena percebe o nome Kawl bordado em seu jaleco.
        Eu me chamo Kawl Wistern, você é uma moça muito bonita. - Lembra ela de quando era mais nova em um barzinho.
-Kawl? ... Você é Kawl Wistern? - Pergunta ela desesperada.
-Sim, esse e meu nome. - Responde ele assustado.
A mãe dela também olha assustada. Helena tenta se levantar, mas sente uma forte dor nas costas.
-Eu sou a Helena, aquela do barzinho, em 95. Lembra? Nós conversávamos através de cartas quando você foi para Berlim. - Diz empolgada.
Desmancha o sorriso e continua.
-Mas você parou de me responder... Porque você parou de responder? Eu fiquei tão preocupada. Nós fizemos planos de eu ir te encontrar em Berlim, mas nada deu certo... Eu acreditei em você e você sumiu.
- Fala com a voz embargada.
-Que história é essa minha filha? Como assim ir embora pra Berlim? - Questiona a mãe preocupada.
-Essa é uma longa história mamãe, depois eu te explico tudo.
-Helena, as coisas em Berlim eram muito complicadas. - Minha rotina de trabalho era muito intensa, chegou um momento que ficou impossível continuar te escrevendo.
-E você simplesmente me esqueceu? Da noite para o dia... - A mãe dela olha confusa.
Não, não foi tão fácil assim, mas eu tinha outras prioridades, eu tinha que estudar e trabalhar...
-Eu vou ao banheiro, já volto. - Diz a mãe de Helena enquanto vai em direção a porta.
-E hoje? Como estão as coisas?
-Eu voltei de Berlim faz 1 ano, agora estou trabalhando nesse hospital... Eu conheci uma moça antes de vir, nós namoramos durante algum tempo e logo ela engravidou... Hoje nós estamos casados.
-Você está casado... - Seus olhos enxem de lágrima. -Eu tranquei a faculdade, vendi meu carro e sai do meu emprego para ir para Berlim te encontrar. A minha vida virou de ponta-cabeça por sua causa e você
parou de me responder porque não tinha tempo para mim. - Fala chorando.
        A porta se abre, a mãe de Helena entra e logo atrás dela um médico.
-Filha o Dr. Mark chegou. - Ela entra no quarto e para diante da cama.
-Desculpem a demora, eu estava em outro hospital em uma cirurgia de emergência. - Olha para Helena que está secando as lágrimas. -Está tudo bem por aqui? - Olha para Kawl.
-Está sim Dr. ela apresenta um quadro estável, só reclamou de um pouco de dor nas costas. - Um bip toca em seu bolso.
Ele olha para o aparelho.
-Desculpe, tenho que ir. - Olha para Helena. -Helena, deixo você com o Dr. Mark, ele é um ótimo médico, tenho certeza que está em boas mãos. Tudo de bom para você. - Sorri para ela e vai em direção a porta.
-Muito obrigado Dr. Wistern. - Se aproxima da cama. A mãe de Helena acompanha Kawl com os olhos até ele sair.
-Que bom, está tudo certo com seus exames. A faca passou bem perto do seu pulmão, mas você teve sorte. - Sorri pra Helena. -Eu já vou te liberar, mas caso tenha qualquer coisa volte para cá, ok?
-Que bom Dr. muito obrigado. - Fala enquanto limpa a bochecha que ainda estava molhada.
Ela olha para o rosto dele e seus olhos verdes prendem a sua atenção.
Um celular toca.
-Com licença, vou ali fora atender. - Diz a mãe dela enquanto vai em direção da porta.
-Vou prescrever alguns analgésicos caso sua dor persista. - Ele olha para o rosto de Helena. -Você é uma moça muito bonita, sabia? - Sorri para ela.
-Obrigado. - Sorri e desvia o olhar sem graça.
-Aqui estão as receitas dos analgésicos caso você fique com dor. Passei um também caso tenha febre. - Entrega as folhas para ela. -Já vou indo, preciso atender outro paciente no andar de cima. Espero reencontra-la
logo, mas claro, fora daqui. - Abre um largo sorriso. - Vai em direção a porta. -Abraços Srta. Helena.
Ela abre as receitas para ver quais os remédios ele havia passado, de dentro delas cai uma folha menor.
 Londres, 23 de setembro de 2005.
  Tom Mark - 9832-92714.
Helena sorri.

(Davyd Vinicius)

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

{Projeto Láquesis} - A cor das flores - Davyd Vinicius





O cheiro da tinta branca pelas paredes e as caixas espalhadas pelo chão revelavam a chegada do Sr. Durval a nova cidade. -Vô, a tia Rose me mandou uma mensagem falando que mais tarde vêm aqui para fazer a janta. - Aproxima-se da sala, passando pelo corredor dos quartos. -Que beleza, peça para ela trazer um martelo. Aquela porcaria fez o favor de estragar bem na hora que eu precisei. - Respira ofegante. Faz uma breve pausa. -Pronto meu filho, a sala já está quase em ordem. O sofá marrom ficava encostado na parede, bem de frente com a estante, há uma distância de um pouco mais de 2 metros. Do lado direito dela, uma janela que dava para a lateral da casa e que ainda estava sem cortinas. Abaixo da janela haviam ainda algumas caixas com coisas que aguardavam pacientemente para serem retiradas. Daniel se aproxima das caixas, abrindo-as curiosamente no intuito de descobrir o que havia dentro, mas tem sua atenção voltada à um pacote grande que havia logo atrás delas. Ele o puxa e rasga um pedaço revelando a parte de um quadro. -Que quadro é esse? - Indaga o garoto magro de cabelos cacheados. Seu avô que estava atrás da estante envolvido com os fios da televisão, se vira e olha para as mãos do garoto. -É um quadro velho que estava guardado lá em casa. - Ajusta os óculos e volta a mexer com os fios. Daniel rasga um pouco mais do pacote revelando a pintura. -Velho mesmo, tá todo desbotado. Porque o senhor ainda guarda isso? Não dá nem pra saber qual é a cor dessas flores. -Ah, mas que porcaria mesmo, não sei porque essas tomadas de agora vêm com três palitinhos. Peça pra sua tia trazer um adaptador também. - Resmunga segurando o fio da televisão. Durval arrasta a estante novamente, à encostando na parede. -Esse é um quadro que meu pai me deu logo que eu casei com a sua avó, está há uns bons anos em nossa família. É uma bela paisagem, acho que vai ficar bom ali naquela parede. - Aponta para a parede entre o sofá e a estante. O jovem olha para a parede e sua feição parece não aprovar o desejo do avô. Daniel coloca o quadro novamente de onde o pegou, encostado na parede logo atrás das caixas. Ele espirra. -Droga de renite alérgica! - entra pelo corredor, indo em direção da porta do banheiro. -Eu deixei aquele negócio de enfiar no nariz em cima do seu balcão... Garoto, tem que pegar um papel higiênico, acho que estão em uma dessas caixas aqui. - Vai em direção da cozinha. Daniel sai do banheiro fazendo barulhos estranhos com o nariz. Quando ele olha para a cozinha, seu avô está encostado na pia com uma aparência pálida. Ele se assusta e corre para ajudar Durval. -Vô, o que o senhor tem? - Pergunta preocupado. Ele pega uma das cadeiras que estão próximas a mesa e coloca ao lado de seu avô. -Nada meu filho, acho que só estou um pouco cansado com essa arrumação toda. - Senta-se na cadeira. -Acho que é melhor pararmos um pouco, boa parte das coisas já estão no lugar. - Fala enquanto enche um copo com água e entrega ao avô. -Eu preciso terminar de arrumar a televisão, logo hoje a Nina vai desvendar a Carminha. - Daniel mexe no celular e não presta muita atenção ao que o avô está dizendo. -O garoto, você avisou sua tia pra trazer o adaptador da tomada? -
Levanta-se colocando o copo em cima da pia. -Sim vô, ela me disse que não vai conseguir vir aqui para fazer a janta, parece que a Bruna vai deixar a Brenda na casa dela, mas disse que vai fazer comida e que podemos ir jantar lá. -Não, não. Sua tia só quer dar desculpas para não vir até aqui. Agora também não vou até lá. - Vai em direção da sala. ´- Garoto, vá lá buscar o adaptador da tomada, Deus me livre se eu perder a minha novela hoje.

O grande dia

Daniel acorda, pega seu celular observando que apesar de já estar um pouco tarde para levantar, seu maior desejo era permanecer ali pelo resto do dia. Veste uma camiseta e vai até a cozinha. Seu Durval já estava ali, sentado com seu jornal nas mãos e com seu copo de café a frente. - Bom dia vô. - Fala com a voz preguiçosa, indo em direção do armário. - Bom dia meu filho. - Ajusta os óculos. Vira a página do jornal. Daniel enche a xícara com café. -Hoje sai o resultado do vestibular, vou ter que ir lá na casa da tia para poder usar a internet. - Puxa a cadeira e senta-se ao lado do avô. - Essa é uma boa faculdade meu filho, sem dúvidas vai passar, você é um garoto muito inteligente. -Não sei vô, eu não acho que estudei o bastante, acho difícil eu entrar esse ano. - Coloca leite no café. -Tudo bem se não passar, você é um garoto jovem, tem todo tempo do mundo para fazer as coisas. Não é como seu avô que nunca sabe se vai terminar o dia vivo. - Fecha o jornal e coloca em cima da mesa. Levanta-se e vai até o banheiro, enquanto Daniel prepara um pão. Daniel termina de tomar seu café e decide ir até a casa da sua tia para conferir o resultado tão esperado do vestibular de Medicina. Seu Durval fica em casa terminando de colocar algumas coisas no lugar. Dessa forma a manhã se passa com horas arrastadas e com um clima pacato que só se encontrava ali.
 -Ai Dani, que nervoso, deixa eu ligar aqui. Imagina que orgulho, ter um sobrinho médico. - Fala enquanto liga o computador. Daniel só observa a tia, mas não parece muito contente. Senta-se na cadeira e começa a digitar.
 O barulho de um apito estridente começa a se espalhar pela casa. -Julia minha filha, desliga a chaleira pra mim por favor, eu estou aqui no quarto ajudando seu primo. - Grita sorridente. Daniel morde os lábios e procura ansioso pelo seu nome na lista de aprovados.
 Daniela Almeida J. da Silva.
 Daniel B. da Fonseca.
 Daniel S. D. Zirmemman.
 Daniel C. dos Anjos.
 -Ai meu Deus, ali meu filho. - Aponta ansiosamente.
 -Seu nome tá ali Dani. - Diz empolgada.
 -Eu passei tia. - Levanta-se incrédulo da cadeira. Coloca as mãos na boca. Sua tia o abraça entusiasmada. Uma lágrima escorre pelo seu rosto contornando o sorriso.
 -Eu não estava acreditando que ia passar, eu nem estudei muito para a prova. - Diz Daniel enquanto chora de alegria.
 - Mas você passou meu filho e agora vai se tornar um médico. - Diz sorridente. -Ju, seu primo passou na faculdade. - Grita empolgada.
 Julia entra no quarto.
 -Ai que maravilha, a gente não tinha dúvidas de que você iria conseguir Dani. - Vai até Daniel e o abraça carinhosamente.
 -Claro que não, você sempre foi um garoto muito estudioso e esforçado. - Abraça Julia e Daniel.
 -Obrigado gente. Agora eu vou lá contar para o Sr. Durval, que deve estar ansioso esperando. - Vai em direção da porta do quarto.
 -Isso meu filho, e veja se faz seu avô sair um pouco daquela casa. Eu vou fazer almoço, traga ele para comemorar com a gente. - Acompanha Daniel até a porta de saída da cozinha.
 -Pode deixar tia. Muito obrigado por deixar eu usar o computador. - Sorri para ela enquanto sai.
 A casa da tia de Daniel ficava a três quadras da casa de Durval, Daniel empolgado com a notícia chegou rapidinho para contar a novidade para seu avô. Daniel entra pela porta e escuta que a televisão da sala está ligada, fecha a porta e vai até lá, mas não encontra o seu avô.
 -Vô, onde o senhor está? - Diz indo até a cozinha que também está vazia. Volta e vai até o corredor dos quartos. Vai até o seu quarto, mas não o encontra lá.
 -Vô, cadê você? - Chama enquanto vai até o quarto de Durval. Bate na porta , mas ele não responde. Daniel abre a porta e se depara com seu avô caído no chão.
Como em um impulso ele corre até Durval, que está desacordado.
 -Meu Deus, vô acorda. - balança o corpo que está no chão. Insiste mais duas ou três vezes, mas não tem nenhum resultado. Desesperado, ele pega o seu celular e liga para uma ambulância e depois para a sua tia.
 Durval é levado para o hospital onde fica internado por alguns dias, e só após fazer diversos exames ficam sabendo o que ele tem.
 -Nós fizemos diversos exames para poder avaliar com propriedade o que está acontecendo com o Sr. Durval. Infelizmente as notícias não são muito boas. - Daniel e sua tia observam atentos o médico à frente da cama de Durval. -O Sr. está com uma doença grave no sangue chamada Mieloma, esse é um tumor maligno que se desenvolve nas células plasmáticas, causando aumento na viscosidade do sangue, lesões nos ossos entre outras coisas. Nós teremos de fazer um tratamento rigoroso para poder combater essa doença, no entanto nossas maiores preocupações são a idade do senhor e a progressão da doença. - A tia de Daniel começa a chorar. -Devido a idade do senhor já ser bem avançada, o seu corpo pode não resistir aos tratamentos, e mesmo que consigamos controlar a doença, ela poderá se proliferar de uma forma muito rápida, atingindo lugares vitais.
 -Mas Dr. então não há o que fazer? - Interrompe Daniel aflito.
 -Bom, nós iremos começar com um tratamento e estaremos monitorando a evolução da doença. Com isso eu acredito que possamos prolongar o tempo de vida do senhor.
 -Ai meu Deus Dr. e em quanto tempo tudo isso pode acontecer? - Pergunta a tia entre lágrimas.
 -Isso eu não posso dizer, tudo vai depender de como o corpo dele vai reagir. Pode demorar 1 ano, como pode demorar 10. - Olha para Durval que está deitado. Daniel abraça sua tia e também começa a chorar.
 -Eu vou visitar outro paciente, logo volto aqui. - Diz o médico enquanto vai em direção da porta.
 Chega á noite, a tia de Daniel vai embora, mas ele decide que vai ficar ali com seu avô. O clima no hospital fica mais calmo, Daniel puxa uma cadeira e se senta ao lado de sr. Durval.
 -E aí vô, como o senhor está se sentindo? - Olha para ele.
 -Ah, eu estou um pouco triste por não conseguir assistir o fim da minha novela. - Daniel da risada. -Mas assim que o senhor sair daqui, eu prometo que vou baixar o final da novela para o senhor assistir. - Diz Daniel sorridente. Os dois ficam em silêncio por alguns minutos.
 -Olha meu filho, quero que você saiba que eu estou muito orgulhoso de você pela faculdade. Lembro quando você era pequeno que chegava da escola e ia direto pra mesa para fazer suas lições e enquanto não terminava não saía dali. Teve até um dia que você dormiu em cima do caderno e eu tive que levar você para seu quarto. -Daniel sorri. -Sabe, sua vó também sempre teve muito orgulho de você. -Respira fundo. -Eu sinto falta da sua vó, mas pelo jeito logo irei encontrar com ela novamente, né? -Durval é interrompido com o médico que entra no quarto. -Sr. Durval, seus exames estão melhores, parece que conseguiremos fazer seu tratamento em casa. Só precisamos que o senhor fique aqui para estabilizar a pressão e logo será liberado. -Daniel fica contente com a notícia. -Eu passarei aqui amanhã de manhã novamente para ver como estão as coisas por aqui e explicar como serão feitos os tratamentos. Tenham uma boa noite. - Sai do quarto.
 -Olha que coisa boa vô, o senhor já está melhor e logo vai sair daqui. -Durval sorri para Daniel que pega o celular. Passam-se alguns minutos e Daniel larga o celular. -Vô, qual é o maior sonho do senhor? - Guarda o celular no bolso. -Ah, na minha idade a gente não tem muito o que sonhar não, acho que só de ter minha família por perto já é um sonho. -Nossa vô, mas o senhor não tem vontade de fazer mais nada? Sei lá, viajar, comprar algo, conhecer alguém... Durval fica em silêncio. -Bom, eu sempre tive uma vontade desde menino, mas sempre achei que era loucura da minha cabeça. Você se lembra daquele quadro que me perguntou outro dia? -Aquele quadro todo desbotado? -Sim. Aquele quadro era do meu pai, ficava na parede da sala da minha mãe quando eu era pequeno, eu sempre achei ele muito bonito, aquele campo com tantas flores, eu sempre quis conhecer aquele lugar. ás vezes me sentava em frente dele e ficava me imaginando ali brincando em meio aquele campo, mas eu nunca soube se aquilo é de verdade. - Ajeita o travesseiro nas suas costas. -Pois é, agora é pior ainda porque ele está velho e desbotado. Mal dá pra ver o que tem ali direito. - Diz Daniel pensativo.
 -Eu tenho muito carinho por esse quadro, me lembra muito a minha infância na casa dos meus pais. Foi a única coisa deles que me restou. Daniel pega o seu celular no bolso e começa a mexer.
 O tempo passa arrastado. Durval dorme a noite toda, Já essa foi uma tarefa difícil para Daniel que tinha apenas uma cadeira. Em alguns momentos andava pelo hospital, tomava um café, mexia em seu celular, conversava com algum enfermeiro que passava, ia e vinha do quarto para ver se o avô estava bem. A manhã demora, mas  chega. Aos poucos, o céu começa a clarear e alguns fechos de luz ignoram os vidros nas janelas e começam a preencher o ambiente. A cidade começa a se agitar e o barulho dos carros passam a dividir espaço com as vozes que ecoavam pelos longos corredores de quartos. Senhor Durval acorda com uma enfermeira que vai trocar seu medicamento. Daniel lê algumas notícias para o avô. Os minutos estavam preguiçosos, assim como a manhã. Outra enfermeira entra no quarto, diz que o médico de sr. Durval só poderá vir a tarde, mas que virá para liberá-lo. Daniel respira aliviado e comemora com um grande sorriso no rosto. Sua tia chega e também se alegra com a novidade. -Ah que coisa maravilhosa, assim que chegarmos vou fazer aquela broinha de milho que o sr. tanto gosta. - Gesticula entusiasmada.
 -Tia, vou aproveitar que você vai ficar aqui e vou para casa tomar um banho e descansar um pouco, mais tarde volto para levarmos ele. - Olha para Durval que se distrai coma revistinha de palavras cruzadas.
 -Tá bem meu querido. Vá, durma um pouco. Qualquer coisa, assim que o médico nos liberar eu te ligo e você espera a gente em casa. Toma, pegue esse dinheiro caso queira comprar algo para comer. -Entrega uma nota a ele.
 -Mais tarde eu faço uma jantinha bem gostosa para a gente. -Abre um longo sorriso. Daniel também sorri. Eles se abraçam. Daniel se despede de sr. Durval e vai em direção da porta do quarto.

O dia passa, Daniel coloca uma boa música no rádio, um daqueles clássicos americanos que ele adorava. Decide organizar a casa. Seu coração estava mais tranquilo sabendo que em poucas horas seu Durval estaria ali novamente. Sim, ele estava um pouco cansado pela noite não dormida, mas isso não importava, queria que tudo estivesse bem para receber o avô que ele tanto amava. A tarde passa de pressa, nem parecia fazer parte do mesmo dia daquela manhã, Daniel organiza a casa, toma um banho e dorme. É acordado com o seu
celular tocando, era sua tia avisando que estavam liberados, pegariam um táxi e logo estariam ali. Ele desliga e começa a mexer em seu celular, algo o incomodava e não se tranquilizaria até solucionar. Vai até a cozinha, pega um copo com água, senta-se na mesa e continua mexendo no aparelho. Faz algumas contas, bebe a água. Caminha até a sala com o aparelho na mão. A sala já estava um pouco escura, o sol parece ter se cansado e também resolveu ir dormir. Vai ser bom se a noite for tranquila como a tarde. Vai ser bom se a lua puder brilhar tão forte quanto o sol. Daniel ascende a luz. Ouve-se o motor de um carro desligar em frente à casa. Ele vai até lá, parece que finalmente sr. Durval estava de volta. A tia de Daniel paga o táxi e logo desce do carro trazendo a mala do pai.  Daniel os ajuda. Ao entrarem eles percebem que a casa está em ordem. Durval vai direto para o sofá. -Vô, o senhor não quer ir para o seu quarto? Acredito que lá seja mais confortável para o senhor. - fala observando Durval. Sua tia concorda.
 -Claro que não, fazem dias que eu não assisto minha televisão, então vocês deixem de serem ranzinzas e me deixem aqui. - Diz enquanto se acomoda no sofá. Daniel traz uma coberta e alguns travesseiros para ele, enquanto Rose decide fazer o jantar. O tempo se passa e ele ajuda a tia na cozinha, eles conversam, dão risadas e logo o cheiro da comida se espalha pela casa. Durval oscila entre assistir à televisão e cochilar, enquanto é monitorado pelos dois. Depois do susto, a casa volta a ter a tranquilidade que só se encontra em Daniel e Sr. Durval. A janta fica pronta, a broa de milho também. Eles se reúnem na mesa e enquanto comem, conversam e dão risada das piadas de sr. Durval. faz-se um silêncio, Daniel coloca suco para o avô. Durval para de comer e começa observar os dois a sua frente, seus semblantes estão felizes, seus corações estão em paz.
 O silêncio é interrompido.
 -Sabe, tem coisas nessa vida que a gente nunca vai entender e tem coisas que a gente só vai entender depois de uma certa idade. -Abaixa a cabeça. -Acho que se eu morresse hoje... -Olha para eles. -Eu morreria feliz. -Abre um sorriso amarelo. A tia de Daniel larga o garfo e olha preocupada para Durval. Faz-se um breve silêncio que logo é quebrado por Daniel.
 -Como assim vô, sem assistir o fim da sua novela? -Da uma gargalhada que logo dispersa o clima melancólico que havia se estabelecido. A tia se levanta. -Ai garotos, a janta estava muito boa, mas se vocês não se importarem eu vou tirando a mesa, porque já está ficando tarde para eu ir. - Começa a reunir os pratos e talheres que estão na mesa. Daniel ajuda a tia e Durval volta para o sofá. Mais alguns minutos e tudo já está em ordem. Eles vão para a sala e a tia de Daniel pega sua bolsa que estava na estante, ela se despede de Durval e o garoto á acompanha até a porta. Ela o beija na bochecha, troca algumas palavras e vai embora. Daniel a observa descendo a rua escura, uma brisa de ar bate em seu rosto balançando seus caixinhos, passando pelo corredor indo até Durval. -Garoto, fecha essa porta, esse vento tá congelando minhas orelhas. -Reclama ele. Daniel entra pensativo, tranca a porta e vai até o avô.
 -Eu acho que já vou me deitar, estou ficando com um pouco de sono. - Diz
Durval enquanto se levanta. Daniel boceja.
 -Está bem vô, eu vou colocar meu colchão ali no chão do seu quarto para que não passe a noite sozinho. - Pega as coisas de cima do sofá.
 -Imagina meu filho, fique tranquilo, eu acho que já estou bem grandinho para não ter medo de dormir sozinho. - Vai em direção do quarto. Daniel desliga a televisão
 -Ra ra ra, muito engraçado o senhor, eu vou dormir aqui sim e não tem discussão. - Vai atrás de Durval. Coloca as coisas em cima da cama.
 -Vô, eu tenho uma coisa para contar para o senhor. - Arruma a cama.
O senhor lembra da conversa que tivemos ontem à noite, sobre aquele quadro?
 -Sim, o que tem o quadro? - Senta-se na cama. -Então, hoje quando vim para casa eu fiquei pesquisando sobre campos de flores e descobri aonde fica aquele campo do quadro. Parece que na verdade é um festival que tem no Japão chamado Fuji Shibazakura.
 -Olha só, sério? Eu na verdade achava que aquilo nem existia, mas é bom saber que uma coisa tão bonita assim existe. Quem sabe um dia você não vai lá visitar não é? - Deita-se e se cobre. Daniel vai até seu quarto e volta com um colchão que coloca nos pés da cama.
 -Sim, mas na verdade eu não vou sozinho, eu vou com o senhor. - Arruma as cobertas no colchão no chão.
 -Ah meu filho, acho que até lá seu avô não estará mais aqui não. - Estica o braço e desliga a luminária que está a sua frente.
 -É que então vô... -Faz uma breve pausa. -Na verdade eu já comprei as nossas passagens. - Olha para Durval.
 Durval que estava deitado se levanta. -Como assim garoto, do que você tá falando? - Olha pra Daniel. -Eu conversei com o seu médico e ele disse que tudo bem, já que será uma viajem rápida e tal. - Sorri.
 -Daniel meu filho, como você pagou isso? Menino, você não tá mexendo com
essas coisas de drogas não né? - Daniel dá uma gargalhada. -Não vô, eu usei o dinheiro que meus pais deixaram naquela conta para mim antes de morrerem. Não tinha tanto, mas vai dar para fazer a nossa viajem. - Se aproxima de Durval. Durval fica emocionado e as lágrimas no seu rosto começam a caminhar.
 -Viu vô, por mais velho que o senhor esteja, jamais deixe de acreditar. Essa viajem vai ser incrível, eu tenho certeza que o senhor vai gostar. - Abraça Durval dando risada.

O dia da viajem

 Durval e Daniel acordam cedo, conferem se está tudo certo com a bagagem. Daniel verifica as passagens, o horário do voo, seus passaportes. Sr. Durval mexe nas janelas para ver se estão bem trancadas. Pegam as malas e vão em direção da porta. -Temos que passar lá na casa da tia para deixar a chave com ela. - Diz Daniel enquanto puxa sua mala de rodinhas.
 -Tá bem. Você pegou aquele negócio de enfiar no seu nariz? - Tranca a porta.
 -Peguei. Bom que o táxi vai ficar até um pouco mais barato de lá. - Pega a chave que Durval o entrega.
 Eles caminham até a casa da tia de Daniel, o dia estava bonito, ensolarado. Daniel usava óculos escuros que contrastavam com sua pele branca e seu cabelo cacheado. Durval estava empolgado com a viajem, mesmo tendo muito medo de pegar um avião. Eles deixam a chave, nem entram na casa de Rose que insiste para tomarem pelo menos um café. Chamam o táxi e logo ele chega, Daniel observa a tia que os abençoa fazendo um sinal. Durval senta-se na frente ao lado do motorista e Daniel logo atrás. O carro começa a andar e eles balançam as mãos se despedindo da tia que logo fica para trás. Havia um pouco de trânsito, o que deixa Daniel apreensivo. Durval passa o trajeto inteiro conversando com o motorista e falando sobre como as pessoas usavam excessivamente os carros. Tudo ia bem. Vinte minutos e logo eles chegam lá. Descem do carro, pegam suas bagagens. Daniel olha o horário e vê que estão ok.
 -Nossa, aqui é bem grande né? -Durval admira impressionado. -Garoto, fica perto de mim, Deus me livre se você se perder aqui, a gente nunca mais vai se encontrar. -Observa com medo algumas pessoas que passam correndo por eles. Depois de cruzarem o saguão eles chegam diante do balcão. Durval fica admirado com as coisas ao seu redor, Daniel passa toda a documentação. Um rapaz do guichê pega as malas para despachar e coloca na esteira. Sr. Durval se assusta. -Dani, meu filho, as nossas malas estão indo embora. - Diz tentando ir atrás delas. Daniel olha para o avô e começa a rir. -Calma vô, isso faz parte do procedimento, depois nós vamos pegar elas de novo. -  Pega os documentos em cima do balcão.
 Check-in feito, eles vão para a sala de espera, aonde ficam por algum tempo, até escutarem seu voo ser anunciado. Durval fica muito impressionado com tudo aquilo, observa cada uma das coisas com muita atenção,
 -Daniel, você tem certeza que comprou as passagens para o Japão? - Diz enquanto estão indo em direção a entrada do avião.
 -Sim vô, por quê? - Pergunta preocupado.
-Porque com tudo isso, mais parece que estamos indo para a Lua. - Daniel dá risada do avô.
 -Bom vô, esse é só o começo, a viagem vai ser um pouco longa, porque nós faremos duas conexões e levaremos quase dois dias para chegar. - fala olhando para as passagens enquanto andam.
 -Dois dias em um avião, eu tenho medo de passar tanto tempo lá em cima e Deus achar que eu já estou querendo ficar por lá. - Gargalha sozinho da própria piada.
 Em poucos minutos eles já estão dentro do avião, acomodados em suas poltronas.
 -Olha meu filho, esses lugares são bons, mas eu achava mais seguro se nós tivéssemos ficado perto do banheiro, só pra caso acontecesse uma emergência. A gente nunca sabe o que pode acontecer né? - fala observando o seu redor. -Calma vô, não vai acontecer nenhuma emergência. O senhor vai ver, a gente vai decolar e quando o sr. menos esperar já teremos chegado na França. - Pega o Ipad entregue pela aeromoça. -Mas olha que engraçado, se eu soubesse que eles vendiam televisões assim eu nunca teria perdido a minha novela. - Observa o Ipad curioso. Daniel da risada. -Não vô, isso é um tablet, serve para a gente acessar a internet, é como um celular, só que maior. Se o sr. quiser eu posso colocar um filme pro senhor assistir. Olha aqui. - Aperta na tela do Ipad que está nas mãos de Durval.
 -Ah essas tecnologias. Quando eu era moço pra gente assistir um filme tinha que andar duas horas de cavalo até chegar em um cinema, hoje em dia vocês andam com o cinema nas mãos. - Balança a cabeça de um lado para o outro. -Pede aí aquele filme do vento que você sabe que eu gosto. Enquanto Daniel procura o filme para Durval, o piloto anuncia a partida, mais alguns minutos e o avião começa a ser suspenso do chão. A nave se inclina e Durval respira fundo enquanto segura firme nos braços de sua poltrona. Daniel percebe que seu avô está nervoso e entrega o tablet a ele. Passam-se algumas horas de voo e Durval permanece entretido com o aparelho, isso o deixava mais calmo e o fazia esquecer que estava tão longe do chão.
 Daniel diz que vai até o banheiro e pergunta para o avô se ele não precisava ir também, Durval responde que não e continua entretido com o filme.
 Enquanto caminha até o banheiro, vai observando cada uma das fileiras de cadeira por onde passa, vendo todas aquelas pessoas naquele avião. Sua imaginação vai longe e ele começa a pensar como seria se algo acontecesse, e se o avião caísse? Mas se distrai com uma criança sozinha que começa a chorar. Ele vai até ela no intuito de ajudá-la.
 -Oi, o que aconteceu? Por que você está chorando? - Fala meio sem jeito. -Eu me perdi dos meus pais. - Fala chorando. -Olha, calma, eu vou te ajudar encontrar seus pais, ok? - Sorri pra ela. -Onde foi que você viu eles pela última vez? Foi aqui? -Ela limpa as lágrimas e acena negativamente com a cabeça. Daniel olha ao redor. -vêm, eu vou te levar até alguma aeromoça, acho que elas vão poder te ajudar melhor que eu. - Vão em direção de outro corredor. Daniel deixa a garota com a aeromoça e vai  em direção do banheiro. Logo escuta-se nos autofalantes o anúncio da criança perdida. Daniel volta para sua poltrona e observa Durval ainda concentrado com o Ipad.
 Assim como eles, as horas voam, mas ali dentro parecem nunca passar. Depois de fazer tudo que era possível, Daniel se entedia e aproveita para dormir. Durval também dorme, mas não consegue aproveitar pois acorda com as pessoas que passam do seu lado. Ele volta a mexer no tablet, encontra alguns joguinhos que o distraem por algum tempo, procura outro filme, mas nada parece preencher aquele tédio. Ele tira seus fones de ouvido e começa a prestar atenção no ambiente ao seu redor. O avião estava razoavelmente cheio, porém muito calmo, dava para ouvir apenas o cochicho de algumas pessoas que estavam conversando e o barulho de algum pacote que estavam manuseando. Olha para um lado, fileiras de cadeiras e janelas, olha para o outro e o mesmo. Olha para Daniel e percebe que ele está dormindo. Um leve
desespero começa a bater. Logo ele que era tão ativo, ali não podia fazer nada além de esperar. Sua respiração começa a ficar aflita, o ar parecia não preencher suficientemente seus pulmões. Um calor invadia seus poros, seu coração começa a acelerar.
 -Dani. - Chaqualha Daniel tentando acordá-lo. Insiste mais duas ou três vezes. Daniel acorda tentando entender o que estava acontecendo. Olha para Durval. -Filho, acho que seu avô não está passando muito bem. - Fala ofegante. -O que o sr. tem vô? - Pergunta preocupado. -Não sei, acho que estou um pouco sufocado. -Calma, o senhor tomou o seu remédio? - Olha para os lados em busca de alguém. Ele avista uma aeromoça e faz um sinal com as mãos para que ela viesse até ali. A aeromoça se aproxima e pergunta o que estava acontecendo. Daniel explica a ela e Durval diz que tinha tomado seus remédios corretamente e que não sabia o que estava acontecendo. Ela chama outra aeromoça que logo também se aproxima. Uma delas sai e logo volta com uma maleta de primeiros socorros.
 -Senhor Durval, nós precisamos que o sr. mantenha a calma, nós iremos medir a sua pressão e checar o que está acontecendo. Qualquer novo sintoma, o senhor por favor nos avise. Elas fazem os procedimentos e aos poucos vão acalmando sr. Durval.
 -Aparentemente o senhor teve apenas uma crise de ansiedade. Isso é muito comum em nossos passageiros, ficar horas e horas em um avião não é tarefa fácil. Tome aqui um calmante, isso irá relaxar o senhor e fará o senhor dormir. Muito em breve estaremos chegando em nossa parada na França e se o sr. precisar, podemos visitar o ambulatório médico. - Entrega um comprimido e um copo com água para Durval. O clima se tranquiliza, mais algumas horas se passam, Durval dorme e Daniel se distrai co o Ipad. Chega a hora da janta, Durval continua dormindo. A aeromoça serve o jantar e Daniel começa a chamar o avô para que comesse alguma coisa.
 -Vô, está na hora do jantar. - Balança Durval cuidadosamente. Ele insiste mais duas, três, quatro vezes mas nada do vô reagir. Daniel começa a balança-lo mais forte. Ele se desespera e grita por uma aeromoça. Algumas pessoas ao seu redor começam a se preocupar e até levantam para saber o que estava acontecendo. Logo a aeromoça se aproxima com uma caixa de primeiros socorros. Mede a pressão, a glicemia, escuta o coração. Mais duas aeromoças chegam para ajudar, elas conversam e trocam códigos que deveriam ser de algum procedimento. Daniel chora preocupado com o avô. Uma das aeromoças vai até a cabine do piloto, enquanto as outras duas deitam Sr. Durval.
 -Moça, por favor, o que está acontecendo com o meu avô? - Pergunta preocupado.
com a voz tremulante. -Nós ainda não sabemos, pedimos que o sr. mantenha a calma que estamos fazendo o possível para saber. -Como você quer que eu mantenha a calma, meu vô pode estar morrendo e você nem sabe o que ele tem. - Levanta-se da poltrona. Os autofalantes do avião são acionados e uma voz feminina ecoa pelo espaço.
 -Atenção senhores passageiros, pedimos que caso haja algum médico a bordo, por favor se apresente a cabine de controles. Aos demais, mantenham a calma e uma boa viagem.
 Uma criança que está atrás de Daniel diz: -Mamãe, eu já vi isso no Gray's Anatomy, será que ele vai ficar sem uma perna também? - Daniel olha chorando para a garota, enquanto seus pais chamam sua atenção. Passa-se dois ou três minutos e logo a aeromoça chega junto de um rapaz. Ele conversa rapidamente com elas e logo começa a examinar Durval. Coloca uma máscara de oxigênio nele e pede a aeromoça que faça massagens cardíacas.
 Olha para Daniel.
 -Você está com ele?
 -Sim, ele é meu avô. - Limpa o nariz.
 -Você sabe se ele tem algum tipo de problema de saúde? - Duas aeromoças saem.
 -Sim, ele está com um problema no sangue, ele faz tratamento com medicamentos. - Levanta-se para pegar sua bagagem de mão. Daniel pega a bolsa de sr. Durval, vasculha e entrega seus medicamentos ao rapaz.
 Uma voz feminina invade o avião novamente, agora anunciando que eles estavam se aproximando do aeroporto de Bastia, na Córsega. O rapaz olha os medicamentos e se desespera.
 -Qual é o seu nome? - Pergunta para Daniel. Daniel responde e o rapaz o entrega os medicamentos de Durval. -Olha Daniel, eu preciso que assim que chegarmos no aeroporto, você vá com seu avô para o departamento médico de lá. Eu irei conversar com o piloto do avião e eles irão encaminhar vocês.- retira o casaco. -Mas como assim, o que o meu avô tem? - Olha para o rapaz. -Eu não posso lhe afirmar o que é sem alguns exames, mas parece que seu avô está tendo uma parada cardíaca. Daniel começa a chorar. O  rapaz sai e diz que logo volta. Daniel olha as pessoas a sua volta com um semblante preocupado. Uma senhora se aproxima dele e começa conversar, ele conta tudo para ela que fica emocionadíssima com a história. Ela elogia Daniel e diz que seu sonho sempre foi ser avó, mas sua filha nunca quis ser mãe. O rapaz volta e se aproxima de Daniel, a senhora dá um beijo nele e diz que tudo vai ficar bem. Ela volta para o seu lugar.
 -Olha Daniel, eu preciso que você seja forte e mantenha a calma. Assim que o avião encostar o chão e se estabilizar nós  precisamos colocar seu avô na maca e levá-lo para a saída de emergência. Eu vou falar com o piloto, mas parece que eles já estão sabendo de tudo e estarão esperando por vocês.
 Os minutos se passam, Daniel está apreensivo, o rapaz anda de um lado para o outro aguardando o pouso. Ele vai até sr. Durval e o examina a todo instante. Conversa com Daniel, olha para o relógio. As pessoas ao redor também começam a ficar agoniadas com a demora, chamam a aeromoça e pedem alguma explicação. O clima no avião começa a ficar estranho, Daniel percebe a movimentação das aeromoças e cochicha com o rapaz que fica apreensivo.
 -Mas que coisa, o que está acontecendo, porque estamos demorando tanto para pousar? - diz o rapaz com raiva. Uma aeromoça se aproxima dele e cochicha algo em seu ouvido. Ele engole seco e fica aparentemente incomodado. Olha fixamente para Daniel.
 -O que está acontecendo? Porque você está me olhando assim? - Pergunta preocupado. Uma voz masculina preenche o ambiente pedindo que os passageiros da mesma sessão de Daniel e Durval vão para a sessão ao lado.
 -Me digam o que está acontecendo, eu quero saber o que está acontecendo. - Daniel se  levanta desesperado. O rapaz se aproxima de Daniel. -Esse não foi um bom momento para viajar com o sr. Durval. -Esse não foi um bom momento? E quando era um bom momento, quando ele estivesse morto? -  Responde irritado. -Eu estou indo realizar um sonho
do meu vô, ele fez tantas coisas por mim a vida toda e eu nunca pude retribuir e agora que posso ele vai morrer. -começa a chorar. -Aaah, droga. -Pega um tavlet e arremessa contra uma das paredes.
 O rapaz vai até Daniel e o abraça.
 -Calma Daniel, nós precisamos qque você mantenha a calma, seu avô precisa de você, e não só ele, mas nós todos. - Eles ficam ali, parados no meio do corredor, o rapaz tenta acalmar Daniel.

A sessão se esvazia ficando apenas eles ali. As aeromoças continuam monitorando sr. Durval. Daniel começa a se acalmar.
 -Isso, calma, vai ficar tudo bem. - Começa a soltar Daniel. -E como você quer que eu fique calmo se eu não sei nem o seu nome.? - Enxuga as lágrimas. -Me desculpa, meu nome é Arthur, eu estou terminando a faculdade de medicina. Eles ficam em silêncio por um momento. Arthur respira fundo, se vira para Daniel e em um impulso diz: -Daniel, o aeroporto está sendo atacado. O prédio está interditado, ninguém entra e nem sai. Há pessoas sendo feitas de refém. Nós não temos muitas informações, mas e por isso que ainda não pousamos. -Mas como assim, e porque nós não vamos para outro lugar? - pergunta assustado. -O sr. Durval não vai aguentar muito tempo, nós não podemos arriscar ir para longe. Nós teremos que pousar e tentar chegar até lá ou caso contrário... - Faz uma breve pausa. Olha para Durval. Uma aeromoça vai até eles, para e fica olhando-os fixamente. -O que foi? Você tem alguma informação? - Pergunta o rapaz aflito. -Sim. -Olha para Daniel. -Eles autorizaram o pouso, mas apenas o garoto e o senhor poderão entrar. -Como assim, você precisa ir comigo, e se algo acontece com ele no caminho, o que eu vou fazer? - Diz Daniel para Arthur.
 O avião começa a pousar.
 -Vamos Daniel, assim que o avião estabilizar você me ajuda a colocar ele aqui, mas com muito cuidado. - Pega a maca e coloca ao lado de onde está Durval. -Depois levaremos ele até aquela porta de emergências. -Aponta para a porta. Em menos de dois minutos o avião encosta o chão, Daniel e o rapaz são rápidos e colocam Durval em cima da maca. Arthur o enrola com uma coberta dada pela companhia aérea. O avião para. Eles empurram a maca até a frente da saída de emergência. O rapaz vasculha a caixa de equipamentos de primeiros socorros e logo tira algo. -Aqui está, preciso que você vá apertando esse balão ao longo do trajeto para que ele possa respirar melhor. - Coloca o equipamento no rosto de Durval.
 -Tá e como você quer que eu empurre ele e aperte isso ao mesmo tempo? - Fala desesperado. A porta começa a se abrir. Arthur respira fundo. Daniel se coloca ao lado de Durval e começa a apertar o balão. Quando a porta termina de se abrir, eles podem ver alguns policiais esperando eles do lado de fora. Daniel tenta puxar a  maca, mas fazer as duas tarefas ao mesmo tempo se torna extremamente difícil. Observando aquela cena, Arthur começa a ajudar Daniel levando a maca para fora.
 -O que você tá fazendo? - Grita Daniel tentando ser ouvido ao meio a uma barulheira. -Eu estou ajudando você. Eu sou um médico e minha missão é salvar vidas, não importam as condições. - Empurram a maca até o chão. Quando chegam lá em baixo, alguns policiais falando inglês começam a guiar eles. Mas quando chegam na porta de entrada do aeroporto eles são parados. Daniel olha para o rapaz e logo escuta alguém lá de dentro gritar: -Only one! - Daniel vê que ele está armado. -O que ele disse? - Pergunta para Arthur. -Eles querem que apenas um de nós entre. - Olha desesperado para Daniel. -Eu vou. Eu consigo. Eu posso não conseguir realizar o seu sonho vô, mas vou salvar a sua vida. - Fala olhando para Durval.
 Com dificuldade Daniel começa a puxar a maca enquanto aperta o balão com a outra mão. Ele vai em direção da porta. Um cordão de policiais ficam para trás apenas observando a situação, outro cara armado espera Daniel para abrir a porta. Daniel está exausto, sua respiração está ofegante e uma gota de suor escorre pelo seu rosto, mas suas mãos não param e muito menos seus pés. Ele chega até a porta, o rapaz faz o sinal para abrir e quando menos se espera, Arthur corre em direção a Daniel e começa a empurrar a maca apressadamente para dentro do aeroporto, tudo acontece rapidamente, uma policial grita desaprovando o ato impulsivo de Arthur.  O homem que está na porta se assusta, escuta-se o click que chama a atenção de Daniel, ele se vira e vê a arma apontada em sua direção. Um estouro ecoa pelo grande salão, Daniel grita e pula em frente a maca de sr. Durval sendo atingido pelo tiro. Daniel caí no chão, Arthur grita. Uma poça de sangue começa a se formar, Arthur larga a maca e pede que os policiais levem Durval para o ambulatório. Ele também diz para uma policial que busque a mala de primeiros socorros que está dentro do avião. Arthur tira a camiseta e a coloca no abdome de Daniel, onde está o ferimento.
 -Daniel, Daniel, cara fala comigo. - Chama desesperado. Ele checa o pulso de Daniel, mas seus batimentos estão fracos. Arthur começa a chorar. -Droga, droga, droga. Daniel, você é forte, você salvou o seu vô e agora precisa ser forte para cuidar dele. Por favor, não nos deixa. A policial chega com os primeiros socorros, Arthur estanca o ferimento, mas mesmo assim Daniel continua perdendo muito sangue. Ele pega Daniel nos braços e com dificuldade procura o ambulatório médico, cada segundo se torna único, cada milésimo se torna indispensável. Ele encontra uma escada rolante, mas ela está desativada.
 -Merda, não vou aguentar subir com você até lá. - Fala ofegante.
Arthur se inunda de sangue. Daniel começa a ter dificuldades para respirar, ele deita Daniel no chão e começa a fazer massagem cardíaca nele. -Daniel, me escuta. -Aperta seu peito. As lágrimas de Arthur caem por cima de Daniel. Arthur o chama, duas, três vezes. Massageia seu peito. Daniel tosse, se afogando com o sangue que sai por sua boca preenchendo o chão. Como uma última reação, seus olhos buscam por Arthur e se despedem.    Ele desiste e desaba por cima dele. Arthur chora por alguns minutos, sabia que tinha que ser forte, pois isso seria frequente em sua profissão. Ele fica ali, em silêncio em meio ao sangue de Daniel, olha em volta, nunca havia se imaginado naquela situação e muito menos sentido aquela sensação. Não sabia se era luto, se era medo ou coragem. Não se arrependia de estar ali. Ele olha para o rosto de Daniel cheio de sangue, seus olhos castanhos tão cheios de vida que agora precisavam descansar. Fecha as pálpebras de Daniel carinhosamente. Arthur se desespera, mas infelizmente Daniel se vai. Se vai para o mesmo lugar que os sonhos de seu Durval, se vai como o tempo que não vão recuperar mais. Se vai como a faculdade de medicina. para um lugar de onde não pode mais voltar.


-



-