De volta para casa
arah Drummond
arah Drummond
Desliguei
o fogo do macarrão e voltei a cortar a salada, ao longe ouvia o barulho de
Daniel e as crianças na piscina, podia claramente distinguir os gritos de
Fernanda e as gargalhadas de Felipe, sorri comigo mesmo por que minha vida era
perfeita. Bem, nem tão perfeita assim, mas... Ela era minha e eu era feliz...
Dês de
os quatorze anos, quando realmente descobri e aceitei quem eu realmente era eu
sabia que não seria fácil, eu tinha certeza que sofreria... Eu sabia que o
mundo onde vivo é intolerante e cruel...
Eu
estava certo... Eu sofri, contei ao meu pai quando completei dezoito anos. Não
foi planejado, mais eu sempre fui impulsivo. Nós estávamos tomando café da
manha e ele lia o jornal, quando ele fez um comentário sobre a parada gay.
- Deviam
jogar gasolina sobre toda essa gente e tacar fogo, - disse, a voz com um tom
neutro, como se tivesse dado uma sugestão da cor da camisa que uma pessoa
deveria usar.
Não
sabia sobre o que ele estava lendo e perguntei, quando ele respondeu, as
palavras simplesmente saíram da minha boca sem que eu pudesse controlá-las
- Se
tivessem feito, eu estaria morto agora
A
discussão que se seguiu foi a pior de toda a minha vida. Disse a ele e repeti
incontáveis vezes as palavras que eu sabia que o machucavam. Eu queria
machucá-lo, queria me vingar pela indiferença com que ele me tratava dês de a
morte da minha mãe.
Naquele
mesmo dia fui expulso de casa, não com uma mão na frente e outra atrás, ele me
deu dinheiro e um lugar para morar, bem longe dele por que afinal ele não podia
aceitar-me perto dele sabendo o que sabia, mas, ainda me amava e eu ainda era
seu filho e ele devia cuidar de mim.
Realmente
foi melhor do que eu esperava. Se a sua atitude me machucou? Fez, e muito, a
sua força, carinho e afeto me fizeram muita falta nos anos que se seguiram,
pois, perdi a única pessoa que eu tinha no mundo, enfrentar tudo que eu
enfrentei sozinho não foi fácil
Fui
demitido de empregos, expulso da minha faculdade por um diretor homofóbico que
era aparentado com um vereador, apanhei de malandros e sofri inúmeras
desilusões amorosas... O fato de ser muito fechado não me permitiu ter muitos
amigos, o único que eu tinha estava fazendo um intercambio em Londres.
Por
tanto, não tinha ninguém em quem eu pudesse despejar as minhas frustrações,
apenas eu comigo mesmo. Durante muitos destes momentos me arrependi, sim, eu me
arrependi de ter contado ao meu pai, durante alguns momentos me odiei por ser
quem e o que era. Mas estes momentos passavam rápido, pois eu sabia que a
melhor coisa do mundo é poder ser você mesmo, e saber que as pessoas ao seu
redor amam quem você é, não quem eles pensam que é.
Meu pai, mesmo sendo uma figura calada e na
dele ainda fazia falta. Seu abraço era o melhor do mundo, eu sabia, e me
lembrava dos meus tempos de criança, quando minha mãe era viva e meu pai uma
pessoa alegre e cheia de vida. Eu tenho
raiva dele, raiva por não estar ao meu lado quando eu precisei dele, e não só ai,
mais nos momentos felizes da minha vida...
O dia de
minha formatura, lembro da sensação, todas as noites mau dormidas, os dias
exaustivos, as horas sem fim estudando para finalmente estar ali, em frente a
todas aquelas pessoas, pegando o meu diploma, me formando naquilo que eu sabia
era a profissão da minha vida. Mas,
quando olhei para a multidão, não vi o seu rosto, cheio de orgulho por mim como
eu sonhei que aconteceria...
No dia
do meu casamento, que, sem duvidas foi o dia mais feliz da minha vida, me casei
com o cara que um dia, no ensino médio eu soquei a cara por ter me chamado de
bicha fresca... Bem, a vida tem destas surpresas mesmo. Na festa apenas os
amigos e parentes de Daniel, e Erick, meu melhor e único amigo, que havia
voltado de Londres uma semana antes.
Se eu o
entendia? Sim, ele era de uma geração diferente da minha, e mesmo que isso não
justifique ainda é uma explicação, era difícil para ele, ainda mais por que eu
era o seu único filho homem, e nem um pai quer que o seu filho seja gay, isso
não me impedia de carregar uma enorme magoa dele, era mais forte que eu afinal.
Não
sabia realmente por que nas ultimas semanas vinha pensando nisto com
freqüência, talvez, algo em mim sabia o que aconteceria naquele dia. Esse tipo
de coisa realmente acontece? Eu não sei... O fato é que ele apareceu em minha
porta aquele domingo que começou como qualquer outro, eu tinha desligado o
forno e me preparava para tirar a forma com o nosso almoço quando a campainha
tocou.
Eu abri
e ele estava ali, anos mais velho, não nos víamos dês de o dia em que ele me
expulsou de casa, e vê-lo ali depois de anos me assustou verdadeiramente. nos
olhamos por alguns segundos, assustados um com as mudanças do outro.
Dei um
paço para o lado, abrindo espaço para ele entrar, ele olhou para dentro e
depois entrou. Fechei a porta e o acompanhei, ficamos frente a frente, não sei
quem deu o primeiro paço, mais quando percebi estávamos abraçados, ele
afastou-me, a distancia de um braço e sorriu.
- você
está diferente...
- eu
cresci, - respondi
Ele
assentiu. A porta de vidro que levava a piscina abriu e Daniel e as crianças
entraram rindo, Daniel carregava Fernanda as costas. Assim que o notaram
ficaram quietos. Daniel entendeu imediatamente o que estava acontecendo...
- Banho!
- disse, colocando Fernanda no chão. Eles Olharam para ele rapidamente e
correram para as escadas.
- Pai,
este e meu Marido, Daniel, querido, este é meu pai, José.
Daniel
estendeu a mão e meu pai apertou.
- É um
prazer conhecer o senhor - disse com um leve sorriso.
Meu pai
assentiu
- Você também,
- Respondeu em um tom brusco.
Daniel
me olhou, encolhendo de leve os ombros, e eu sabia o que ele estava pensando,
levaria um tempo.
Fez-se
um silêncio constrangedor
- vou
olhar as crianças, - Daniel disse, acenou para meu pai e subiu as escadas
- senta
- eu disse apontando o sofá,
Nos
sentamos frente a frente e mais uma vez ficamos em silêncio. Eu não diria nada,
não era assim que deveria ser, ele quem devia começar a falar por que me devia
aquilo... Ele olhava para as mãos juntas em seu colo. - você está feliz? -
perguntou, erguendo os olhos para mim
- sim,
eu realmente estou
Ele
ficou em silêncio
- Eu
sinto muito, André... Eu só... Eu só nunca imaginei que fosse ter um filho... -
ele hesitou.
- Gay, -
eu disse.
- Bem...
sim, eu me assustei, ok. eu não sabia como lidar, eu queria netos e...
- Você
tem três...
-
mas...?
- Felipe
e Fernanda são os mais novos, temos Eduardo com vinte anos, ele está fazendo
intercambio em Nova York
-
Nossa... - Ele pareceu atormentado, e de repente, vi lagrimas escorrerem de
seus olhos... - Eu sinto muito Filho! Eu preciso que me perdoe, não consigo
mais viver nesta solidão, e longe do amor do meu filho, que é a pessoa que mais
amo no mundo, e se você ama aquele homem La em cima, eu vou me esforçar o máximo
para entender e respeitá-lo, e amar meus netos e velos crescer, eu preciso
disso... Preciso de você. Eu não conseguia acreditar, ele estava chorando, e
José De Nos nunca chorava, olhei para ele, realmente olhei, me perguntei o que
aconteceria se eu dissesse que não o perdoava. Eu o magoaria, sem duvidas,
talvez assim, ele pudesse e experimentar um pouco do sofrimento que eu senti,
sozinho e abandonado, durante todos aqueles anos...
Ele
enxugou as lagrimas que escorriam pela bochecha com as costas da mão, isso me
fez perceber que ele havia sofrido também. Ouvi a voz de Daniel em minha mente,
"O que você vai ganhar com isso?" Eu me vingaria dele, mas a troco do
que? Do meu sofrimento também, então me dei conta que não valeria apena, que se
eu o perdoasse ali, naquele momento nós teríamos uma chance. Me inclinei e
toquei sua mão, e a apertei com firmeza.
- Eu
senti muito a sua falta, - Disse com um pequeno sorriso.
Ele
sorriu de volta, colocando a outra mão em cima da minha. Eu conseguia sentir um
calor se espalhando do meu peito para todo o meu corpo. Eu sabia que não seria
um começo fácil, por que mesmo que eu o tivesse perdoado, eu ainda sentia
magoa. Mas eu amava o fato de que ele estava ali, que havia pedido perdão, e
sabia que eu tinha tomado a decisão certa, por mim, por ele e por nossa
família.
A
historia de André se repete todos os dias. Meninos e meninas são expulsos de
casa por conta de sua orientação sexual; E
apesar de que nem todas as histórias terminam como esta, eu a escrevi para
tentar trazer esperança para quem se identificar de alguma forma com ela.


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