Mostrando postagens com marcador Sarah Drummond. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sarah Drummond. Mostrar todas as postagens

domingo, 2 de setembro de 2018

[Projeto Láquesis] Necrotério - Sarah Drummond




 A velha senhora caminhava lentamente pela calçada, o som de seus
paços se intercalava entre o toque macio do calçado que ela usava, e o
baque duro da bengala de madeira que usava para caminhar. Entrou no
prédio frio e escuro e foi auxiliada por um jovem que trabalhava lá a
para chegar a recepção.
    Falou por que estava ali para a jovem recepcionista, e ignorou o
olhar de pena com que ela a olhava, nunca em sua vida havia sido
conivente com aquele tipo de olhar em relação a ela, e não era com a
idade que tinha que começaria a ser.
    Passou as informações dele, e sua voz fraquejou ao falar seu nome,
mas sua expressão era séria em meio as linhas que marcavam o mapa de sua
vida. Mais uma vez, enquanto ia para o elevador, o jovem a auxiliou,
quando entraram ela se apoiou em sua bengala, pedindo perdão a Deus.
    - Eu lhe dei todas as surras que ele merecia, contou a ele, - E o
amei mais que tudo. Deus não a respondeu, ele nunca respondia, mais com a idade que
tinha já havia se acostumado com o seu silêncio.
    Contra o peito, carregava uma foto dele, de quando ainda era
criança. Da época em que as colagens para o dia das mães feitas na escola em papel crepom, eram levadas para casa e entregues à ela. Quando ainda era fácil agrada-lo, televisão, um pote cheio de bolacha e leite com tod,
era o suficiente para que ele fosse feliz. Mas ele cresceu e passou a
querer celular, roupas da moda e cadernos de capa dura,. Ela lhe deu
tudo apesar de não ter muito dinheiro. Até que ele largou a escola e começou a andar com a turma do Duda, com quem conseguiu um trabalho  para ganhar dinheiro fácil. Ela gritou com ele,
e implorou para que ele voltasse para a escola, mas ele a ignorou.
Quando suas dívidas vieram ele começou a vender suas coisas para pagar,
e quando ela tentou impedir apanhou. Naquele dia ela soube que o menino
doce que ela havia criado já não existia mais.
    Noites antes havia acordado assustada, seu primeiro pensamento foi
ele, se levantou lentamente e caminhou pela casa, se apoiando nas
paredes, indo na direção de seu quarto. Quando abriu a porta, percebeu
que ele continuava da mesma forma que ela o havia arrumado a pouco mais
de duas semanas. Entrou e sentou em sua cama, passando a mão lentamente
pela sua coberta favorita.
    Ouviu a noticia no jornal do meio dia. O corpo foi encontrado no
matagal da favela vizinha dois dias antes, e ainda não havia  sido
identificado.
 Ela colocou o seu casaco mais quente e pegou quatro ônibus para só então chegar até ali.
    Eles entraram na sala fria e escura, cercada por portas prateadas,
mas o que se destacava era a grande mesa. nela, um corpo imóvel coberto
por um lençol branco. Logo, as lagrimas estavam em sua garganta, e
 seus paços, enquanto caminhava em sua direção eram mais lentos.
    Quando o lençol foi abaixado ela o viu, Levi, sua criança, seu rosto
congelado em uma expressão de dor. Sentiu algo úmido e quente escorrendo
por seu rosto, percebeu que eram lagrimas, e os soluços que  encheram a
sala eram do mais profundo desespero.
(Sarah Drummond)

quinta-feira, 24 de maio de 2018

{Projeto Láquesis} De volta para casa - Sarah Drummond





                                                                              De volta para casa 
                  arah Drummond

               Desliguei o fogo do macarrão e voltei a cortar a salada, ao longe ouvia o barulho de Daniel e as crianças na piscina, podia claramente distinguir os gritos de Fernanda e as gargalhadas de Felipe, sorri comigo mesmo por que minha vida era perfeita. Bem, nem tão perfeita assim, mas... Ela era minha e eu era feliz...
               Dês de os quatorze anos, quando realmente descobri e aceitei quem eu realmente era eu sabia que não seria fácil, eu tinha certeza que sofreria... Eu sabia que o mundo onde vivo é intolerante e cruel...
               Eu estava certo... Eu sofri, contei ao meu pai quando completei dezoito anos. Não foi planejado, mais eu sempre fui impulsivo. Nós estávamos tomando café da manha e ele lia o jornal, quando ele fez um comentário sobre a parada gay.
               - Deviam jogar gasolina sobre toda essa gente e tacar fogo, - disse, a voz com um tom neutro, como se tivesse dado uma sugestão da cor da camisa que uma pessoa deveria usar.
               Não sabia sobre o que ele estava lendo e perguntei, quando ele respondeu, as palavras simplesmente saíram da minha boca sem que eu pudesse controlá-las
               - Se tivessem feito, eu estaria morto agora
               A discussão que se seguiu foi a pior de toda a minha vida. Disse a ele e repeti incontáveis vezes as palavras que eu sabia que o machucavam. Eu queria machucá-lo, queria me vingar pela indiferença com que ele me tratava dês de a morte da minha mãe.
               Naquele mesmo dia fui expulso de casa, não com uma mão na frente e outra atrás, ele me deu dinheiro e um lugar para morar, bem longe dele por que afinal ele não podia aceitar-me perto dele sabendo o que sabia, mas, ainda me amava e eu ainda era seu filho e ele devia cuidar de mim.
               Realmente foi melhor do que eu esperava. Se a sua atitude me machucou? Fez, e muito, a sua força, carinho e afeto me fizeram muita falta nos anos que se seguiram, pois, perdi a única pessoa que eu tinha no mundo, enfrentar tudo que eu enfrentei sozinho não foi fácil
               Fui demitido de empregos, expulso da minha faculdade por um diretor homofóbico que era aparentado com um vereador, apanhei de malandros e sofri inúmeras desilusões amorosas... O fato de ser muito fechado não me permitiu ter muitos amigos, o único que eu tinha estava fazendo um intercambio em Londres.
               Por tanto, não tinha ninguém em quem eu pudesse despejar as minhas frustrações, apenas eu comigo mesmo. Durante muitos destes momentos me arrependi, sim, eu me arrependi de ter contado ao meu pai, durante alguns momentos me odiei por ser quem e o que era. Mas estes momentos passavam rápido, pois eu sabia que a melhor coisa do mundo é poder ser você mesmo, e saber que as pessoas ao seu redor amam quem você é, não quem eles pensam que é.
                Meu pai, mesmo sendo uma figura calada e na dele ainda fazia falta. Seu abraço era o melhor do mundo, eu sabia, e me lembrava dos meus tempos de criança, quando minha mãe era viva e meu pai uma pessoa alegre e cheia de vida.  Eu tenho raiva dele, raiva por não estar ao meu lado quando eu precisei dele, e não só ai, mais nos momentos felizes da minha vida...
               O dia de minha formatura, lembro da sensação, todas as noites mau dormidas, os dias exaustivos, as horas sem fim estudando para finalmente estar ali, em frente a todas aquelas pessoas, pegando o meu diploma, me formando naquilo que eu sabia era a profissão da minha vida.  Mas, quando olhei para a multidão, não vi o seu rosto, cheio de orgulho por mim como eu sonhei que aconteceria...
               No dia do meu casamento, que, sem duvidas foi o dia mais feliz da minha vida, me casei com o cara que um dia, no ensino médio eu soquei a cara por ter me chamado de bicha fresca... Bem, a vida tem destas surpresas mesmo. Na festa apenas os amigos e parentes de Daniel, e Erick, meu melhor e único amigo, que havia voltado de Londres uma semana antes.
               Se eu o entendia? Sim, ele era de uma geração diferente da minha, e mesmo que isso não justifique ainda é uma explicação, era difícil para ele, ainda mais por que eu era o seu único filho homem, e nem um pai quer que o seu filho seja gay, isso não me impedia de carregar uma enorme magoa dele, era mais forte que eu afinal.
               Não sabia realmente por que nas ultimas semanas vinha pensando nisto com freqüência, talvez, algo em mim sabia o que aconteceria naquele dia. Esse tipo de coisa realmente acontece? Eu não sei... O fato é que ele apareceu em minha porta aquele domingo que começou como qualquer outro, eu tinha desligado o forno e me preparava para tirar a forma com o nosso almoço quando a campainha tocou.
               Eu abri e ele estava ali, anos mais velho, não nos víamos dês de o dia em que ele me expulsou de casa, e vê-lo ali depois de anos me assustou verdadeiramente. nos olhamos por alguns segundos, assustados um com as mudanças do outro.
               Dei um paço para o lado, abrindo espaço para ele entrar, ele olhou para dentro e depois entrou. Fechei a porta e o acompanhei, ficamos frente a frente, não sei quem deu o primeiro paço, mais quando percebi estávamos abraçados, ele afastou-me, a distancia de um braço e sorriu.
               - você está diferente...
               - eu cresci, - respondi
               Ele assentiu. A porta de vidro que levava a piscina abriu e Daniel e as crianças entraram rindo, Daniel carregava Fernanda as costas. Assim que o notaram ficaram quietos. Daniel entendeu imediatamente o que estava acontecendo...
               - Banho! - disse, colocando Fernanda no chão. Eles Olharam para ele rapidamente e correram para as escadas.
               - Pai, este e meu Marido, Daniel, querido, este é meu pai, José.
               Daniel estendeu a mão e meu pai apertou.
               - É um prazer conhecer o senhor - disse com um leve sorriso.
               Meu pai assentiu
               - Você também, - Respondeu em um tom brusco.
               Daniel me olhou, encolhendo de leve os ombros, e eu sabia o que ele estava pensando, levaria um tempo.
               Fez-se um silêncio constrangedor
               - vou olhar as crianças, - Daniel disse, acenou para meu pai e subiu as escadas
               - senta - eu disse apontando o sofá,
               Nos sentamos frente a frente e mais uma vez ficamos em silêncio. Eu não diria nada, não era assim que deveria ser, ele quem devia começar a falar por que me devia aquilo... Ele olhava para as mãos juntas em seu colo. - você está feliz? - perguntou, erguendo os olhos para mim
               - sim, eu realmente estou
               Ele ficou em silêncio
               - Eu sinto muito, André... Eu só... Eu só nunca imaginei que fosse ter um filho... - ele hesitou.
               - Gay, - eu disse.
               - Bem... sim, eu me assustei, ok. eu não sabia como lidar, eu queria netos e...
               - Você tem três...
               - mas...?
               - Felipe e Fernanda são os mais novos, temos Eduardo com vinte anos, ele está fazendo intercambio em Nova York
                                            - Nossa... - Ele pareceu atormentado, e de repente, vi lagrimas escorrerem de seus olhos... - Eu sinto muito Filho! Eu preciso que me perdoe, não consigo mais viver nesta solidão, e longe do amor do meu filho, que é a pessoa que mais amo no mundo, e se você ama aquele homem La em cima, eu vou me esforçar o máximo para entender e respeitá-lo, e amar meus netos e velos crescer, eu preciso disso... Preciso de você. Eu não conseguia acreditar, ele estava chorando, e José De Nos nunca chorava, olhei para ele, realmente olhei, me perguntei o que aconteceria se eu dissesse que não o perdoava. Eu o magoaria, sem duvidas, talvez assim, ele pudesse e experimentar um pouco do sofrimento que eu senti, sozinho e abandonado, durante todos aqueles anos...
               Ele enxugou as lagrimas que escorriam pela bochecha com as costas da mão, isso me fez perceber que ele havia sofrido também. Ouvi a voz de Daniel em minha mente, "O que você vai ganhar com isso?" Eu me vingaria dele, mas a troco do que? Do meu sofrimento também, então me dei conta que não valeria apena, que se eu o perdoasse ali, naquele momento nós teríamos uma chance. Me inclinei e toquei sua mão, e a apertei com firmeza.
               - Eu senti muito a sua falta, - Disse com um pequeno sorriso.
               Ele sorriu de volta, colocando a outra mão em cima da minha. Eu conseguia sentir um calor se espalhando do meu peito para todo o meu corpo. Eu sabia que não seria um começo fácil, por que mesmo que eu o tivesse perdoado, eu ainda sentia magoa. Mas eu amava o fato de que ele estava ali, que havia pedido perdão, e sabia que eu tinha tomado a decisão certa, por mim, por ele e por nossa família.

               A historia de André se repete todos os dias. Meninos e meninas são expulsos de casa  por conta de sua orientação sexual; E apesar de que nem todas as histórias terminam como esta, eu a escrevi para tentar trazer esperança para quem se identificar de alguma forma com ela.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

[Conto] Caminhos - Sarah Drummond

    

Com o vestido de noite em seu devido lugar, fui para a janela, me sentando no beiral. quão rapido seria a minha morte se eu me jogasse dali, esmagando meu corpo no chão, seis andares abaixo? quantas vezes mais teria que enfrentar aquilo?
    Minha beleza, que antes me era motivo de orgulho, agora era considerada uma maudição, por que mesmo depois de três casamentos, e pouco sobrando dela, eu estava ali, no quarto, escovando os cabelos, enquanto esperava o meu quarto marido.
    Depois que meu terceiro morreu, assassinado pelo herdeiro do vizinho de fronteira a norte de nosso feudo, por ter imprudentemente comprado uma briga sem sentido, eu pensei que seria o ultimo, pensei que finalmente iria me estabelecer no castelo de Ribeiro encantado, ajudar minha mãe com as obrigações de uma Castelan e filha da casa, cuidar de meus feridos e doentes, algo que eu tinha certeza de minha competência, e cuidar de meu sobrinho Brian, filho de minha irmã gêmea, que fora morta junto a seu marido, por assaltantes, enquanto iam para ribeiro encantado para o meu primeiro casamento. Aquilo sem duvidas devia ser um aviso do quão amaldiçoada seria a minha vida.
    Mas ele apareceu... Lorde Matew de montes claros, que era o herdeiro de montes claros, o único dos onze feudos do sul que não havia formado uma aliança com o meu pai, que liderava a maior aliança de todo o reino,  embora tivessem um acordo de cooperação, já que anos antes meu pai acolhera lorde Matew e sua comitiva em nosso castelo, a maioria deles feridos, incluindo lorde Matew, pois haviam sofrido uma emboscada de assaltantes enquanto voltava de uma reunião na corte. eu mesma, com minhas mãos habilidosas, com doze anos de idade cuidei de seus ferimentos. As alianças eram firmadas atravez de casamentos, fossem com as filhas do senhor da liança ou com as filhas dos outros lordes, todos os meus casamentos aconteceram para que estas alianças fossem formadas, assim como o ultimo...
    Por que lorde Matew queria uma mulher que já se deitara com três homens diferentes, que trazia no rosto e no corpo marcas de sofrimento, triste, fria e distante como esposa era um mistério para mim, principalmente por que haviam três moças solteiras em idade para casar, lindas e com garantia de virgindade para ele escolher..
    Eu pensava nisso quando olhava para as marcas de chicotadas em meus braços, cortesia de meu segundo marido, aquelas nunca sairiam, pois eu não podia cuidar delas corretamente, já que eram abertas constantemente.
 Baixei a escova parando por alguns segundos de desembaraçar os fiosnegros e compridos de meus cabelos e mechi os pulsos doloridos, machucados por meu terceiro marido que os segurava com força contra a cabeceira da cama enquanto me tomava violentamente. Eles sem duvidas deixaram suas marcas em meu corpo e espirito... Por muitas vezes enquanto em meu primeiro casamento lamentava a falta de interesse de meu marido, que só se lembrava de minha existência quando íamos para cama, mas lamentei o constante interesse dos outros dois.
    Perguntei-me quem era lorde Matew verdadeiramente, pois, fora de seus quartos os homens eram quem queriam, e minha experiência me mostrou que eles só se revelavam no quarto. Por isso anciosamente eu esperava para vêr em quem o alegre e cativante senhor de montes claros se transformaria assim que fechasse a porta atrás de si, trancando o mundo lá fora...
    E ele chegou... Fechou a porta calmamente, sorrindo levemente para mim, enquanto andava até uma mesa no canto do iluminado quarto e depositava suas armas lá.
    - Esse foi, sem duvidas um longo dia Angela
    - Realmente, meu senhor. - eu disse, minha voz baixa
    - Seu irmão Jorge realmente gosta de falar... - Disse, a voz leve e animada - A minha sorte e que Lady Catarina sabe como fazer o marido se calar...
    Não era um comentário maldoso, eu percebi, era uma brincadeira, uma que alguém faria de um velho amigo... Quanto tempo mais demoraria? que monstro o corpo e as feições bonitas de meu marido escondia? me perguntei, enquanto observava de canto de olho ele se abaixar para tirar as botas...
    Sem que eu quisesse, meu corpo começou a tremer. O que vinha pela frente agora? o quanto ele me mautrataria? Eu sabia que existiam casamentos felizes, o do meu irmão Jorge, por exemplo, ele e minha cunhada viviam um para o outro, mais eu sabia que aquilo não era para mim, minha sina era sofrer, sofrer e nunca encontrar o amor que Catarina e minha mãe encontraram, eu já havia aceitado isso.
    Senti o olhar dele em mim mais não o olhei, fixei meus olhos no céu negro de verão visto da janela. Depois de um tempo senti sua aproximação, seus paços  de pés descalços foram abafados pelo tapete. Ele não me tocou, pelo que eu fiquei grata. Suas mãos se apoiaram no beiral, perto das minhas e também ele olhou para o céu
    - Quando eu era pequeno, em noites como esta, meu pai costumava levar a mim e meus irmãos lá para fora, para aquele monte menor, você vê? - ele disse, apontando uma sombra escura contra a noite, que eu sabia ser um pequeno monte, a uma ou duas horas do castelo. Assenti e ele continuou, - nós acampávamos lá, e ele ensinava-nos o nome das estrelas e contava historias até que o ultimo de nós dormía, muitas vezes fora das tendas... - Ele pareceu pensativo,
    Me perguntei o que ele estava fazendo, nenhum de meus maridos conversava comigo, na minha experiência  naquele momento, todos os três já tinham tomado o que queriam.
    - Também eu vou fazer isso com os nossos filhos, todos com os cabelos negros e os olhos lindos da mãe, - ele disse sorrindo para mim, com um sorriso que eu não queria interpretar
    Baixei o rosto, olhando para nossas mãos proximas e o ouvi suspirar, eu não sabia responder a isso...
    - Olhe para mim Angela, por favor, - ordenou, a voz baixa
    Eu obedeci
    - Sei que já sofreu em demasiado em sua vida, com os outros maridos... por isso seu pai não queria me dar sua mão, mas...
    Isso me pegou de surpresa
    - Ele não queria? - perguntei repentinamente o interrompendo, minhas mãos foram para minha boca pelo susto, eu o enterrompi... Ele ergueu a mão e eu ergui os braços, virando o rosto e fechando os olhos para me proteger da pancada que eu sabia que estava por vir...
    Senti seu toque, suave em meu braço,
    - Olhe para mim Angela...! - pediu, sua voz suave, como se tentasse se aproximar de um animal arisco. de vagar, baixei os braços, sua mão nunca se afastando, e o olhei, seus olhos calmos olhavam-me
    - Eu nunca bateria em você! - ele disse, - Você pode falar comigo, e me interromper também se você quiser...
    Seus dedos se afastaram do meu braço de vagar
    - Respondendo a sua pergunta, é por que eu lhe fiz uma promessa...
    - Que promessa? e por que eu? por que eu entre todas?
    Ele se encostou na parede de frente para mim e cruzou os braços,baixando o rosto para que nossos olhares se encontrassem,
    - A anos atrás, quando meu pai e eu voltávamos de uma reunião na corte, nós fomos emboscados, eu ainda era muito novo, mais como herdeiro, era a minha obrigação acompanhá-lo nesse tipo de reunião, eu lutei, lutei contra os assaltantes mais eles fugiram, não antes de deixar muitos feridos e infelizmente um morto... Meu pai deixou um guarda que quase não tinha se ferido para cuidar dos outros e ele e eu comessamos a caminhar, também machucados para a direção onde sabíamos estar a aldeia onde ficava o castelo do senhor daquele feudo. Mas seus homens nos encontraram na estrada e nos foi mais facil chegar... Quando chegamos, a primeira coisa que notei foi uma garota, ela parecia ser muito mais nova que eu, chegando perto da idade de casar-se e fiquei encantado... Para a minha surpresa, ela era uma curandeira hábil, e assim que ela me tocou, suas mãos mornas e macias, eu soube a quem meu coração pertencia... E na semana que passou, tempo que ficamos hospedados no castelo eu tinha certeza cada vez que me deparava com o olhar lindo, meigo e azul,  ouvia a sua voz suave e alegre e via seu corpo de menina andando ao redor, ajudando a mãe com as tarefas com uma graça sem igual, mostrando que seria para seu marido a mais eficiente das esposas, e a mais competente Castelan
    Eu ouvia suas palavras sem acreditar, meu cérebro se esforsando para processar o que ele contava
    - Então, antes de ir embora, eu me reuni com o senhor do castelo e a pedi em casamento
    Senti meu rosto úmido e percebi que estava chorando, pois eu sabia o que tinha acontecido, e entendi por que eu, por que eu entre todas as outras... Mesmo que fosse dificil de acreditar, suas palavras não mentiam. Sua mão se ergueu de vagar, indo para seu bolso, onde pegou um lenço, com o qual suavemente enxugou minhas lágrimas, enquanto continuava contando, sua voz cheia de emoção
    - Mas ela já tinha sido prometida a outro homem, um que havia crescido comigo e que eu sabia que não cuidaria dela como ela merecia...
Ah, eu me senti tão decepcionado... tão desesperado... mais o que eu podia fazer? Fui embora com o coração partido e seis meses depois voltei para o casamento e a vi, linda em seu vestido de noiva se casar com
outro homem.
    Um ano depois, mesmo que o que eu vou dizer pareça horrível, a mais feliz das noticias chegou para mim, o marido havia morrido, ela estava viuva, falei para o meu pai sobre minhas intenções e ele achou prudente que esperássemos passar o período de luto, mais esperamos tempo demais, quando informei minhas intenções a seu pai, mais uma vez ele me disse que tinha a prometido a outro. Eu voltei para casa e no segundo casamento eu não compareci, eu sabia que não teria forças para isso,.
    Ele fez uma pausa para respirar profundamente, e  esfregou seu rosto com uma das mãos, depois fixou-me novamente com seus lindos olhos verdes
    - Ele batia nela... Eu não me orgulho do que vou dizer Angela...Mas foi eu quem o matou... Como eu poderia deixar que ele torturasse aquela que eu mais amava? Rei Willian descobriu e me puniu, me mandou para outro país para trabalhar como cavalheiro em um feudo, fiquei lá durante cinco anos, Willian não contou a ninguém, os únicos que sabiam eram meu pai, meu melhor amigo, um outro amigo e a pessoa que contou a Willian o que eu havia feito... Quando eu voltei, mais uma vez, cheio de esperanças ela estava casada novamente... Então eu cheguei a conclusão de que não era para ser, aquela mulher nunca seria minha, não eram estes os planos que Deus tinha para mim... Naquele mesmo verão comessei a procurar uma noiva, mais sempre achava um defeito ou outro em cada uma e o noivado nunca se realizava, quando fui em visita ao feudo vizinho ao de seu pai, para conhecer a filha mais velha da casa eu descobri que mais uma vez ela ficara viúva... Tinha acontecido uma semana antes, peguei meu cavalo e um dia depois eu estava as portas do castelo. Seu pai já sabia por que eu estava alí, e depois de muita conversa aconteceu... Ela finalmente, finalmente era minha, minha prometida.
    A mão que antes secava minhas lagrimas agora tocava minha bochecha carinhosamente, a testura da pele áspera e calosa, aquela era a mão de um guerreiro, o meu herói, que me salvou de meu carrasco, e atempo, pois eu sabia que não resistiria muito tempo.
    - Eu estou quebrada... - sussurrei, - pouco sobrou da menina de doze anos que você conheceu
    Ele colocou a outra mão em meu rosto, se aproximando de mim, aproximando nossos rostos e acenou com a cabeça negativamente
    - Ela ainda vive Angela! escondida em algum lugar, mais existe... E nós dois, juntos, vamos encontrá-la
    Com o meu rosto entre as mãos ele nos aproximou lentamente, eu senti a distancia entre os nossos lábios diminuindo pouco a pouco...
Queria não ter que me deitar com ele, por que? por quê os homens desejavam fazer aquilo? por que nós mulheres tinhamos que passar por aquela tortura?
    Seus labios tocaram os meus levemente, indo e voltando varias vezes e sua respiração quente que batia em meu rosto, seu cheiro que era surpreendentemente bom e os labios macios me fizeram sentir algo diferente, sua língua passou pela custura de meus labios e eu suspirei com o contato, ele envadio minha boca e mil sensações passaram por meu corpo.
    O que era aquilo? algo em minha mente gritava, mais surpreendentemente não era em negação, era em confusão. Eu queria desesperadamente que ele não parasse de me beijar, pois era a primeira vez que aquilo acontecia acompanhado por aquela sensação. Mas eu tinha medo...
    Sem saber direito como, comessei a corresponder o beijo, ele pareceu gostar... Eu queria poder dizer que apartir dali tudo foi lindo, mais em três momentos os meus medos falaram mais alto que eu, penetrando nas sensações maravilhosas que Matew estava me proporcionando com suas mãos e lábios, fazendo com que eu sentisse como se em minhas veias corresse fogo líquido. O primeiro foi quando ele tirou meu vestido... Eu me cobri de vergonha, deslizando meu olhar para longe dele, abraçando a mim mesma, graças a vergonha que me tomava, pois todas as minhas cicatrizes estavam a mostra. Eu tinha medo de ver a fome, que me  proporcionavam medo e ecitação em medidas iguais  sumir de seus olhos quando visse o meu corpo disfigurado.
    Mas, como eu descobri mais tarde aquele homem era sem igual, ele tocou meu rosto, me fazendo olhá-lo
    - você é uma mulher linda! essas marcas mostram o quão linda... Elas são a prova do quão forte e guerreira você é, esse momento prova... Eu amo seu corpo Angela, por que ele faz parte de quem você é... e eu amo você!
    Voltamos a nos beijar e ele me levou para a cama, eu tirei suas roupas, e vi o quão lindo seu corpo de guerreiro era... O segundo momento veio em seguida, quando ele estava prestes a nos unir eu paralizei, tença demais para dizer qualquer coisa, mais seus lábios estavam ali, tão perto e tão macios, ele me beijou, e quando mais uma vez eu me soltei ele fez... Nos movemos juntos, eu descobrindo em seus braços sensações novas e maravilhosas... Quando tudo estava acabando senti levemente, entorpecida por minhas sensações, seus dedos deslisando por meus braços, então ele segurou meus pulços... Eu soei frio, e atento a todas as minhas reações ele percebeu, levemente deslisou os dedos pelos meus e os entrelaçou, mais uma vez, sua boca estava alí para me fazer esquecer... E finalmente eu descobri o que era o prazer extremo junto a ele, o homem que me esperou por dez anos e nunca desistiu de mim, que mesmo sabendo que eu estava quebrada me quis para cuidar, amar e proteger...
    Hoje, dez anos depois estou sentada na mesma janela, a mesma que um dia quis me jogar. Mais agora, olho longe para o monte, o monte onde meu marido e meus três filhos, Gabriel o primogênito, que é uma copia fiel do pai, com grandes olhos verdes, cabelos castanhos e estatura alta, e os gêmeos travessos Nicolas e Eduardo, que são tão parecidos comigo quanto Gabriel é com o pai, estão.  É a primeira vez que fico tanto tempo longe dos gêmeos pois essa é a primeira vez que animados, com os olhos brilhantes eles foram junto a seu pai e seu irmão mais velho, que já era aos seus olhos um herói, para uma aventura.
    Meu coração de mãe e esposa sentia a falta deles, pois se eles estivessem ali, eu colocaria todos os três na cama, depois de juntos termos tomado um copo de leite quente com mel e canela... Depois viria para o quarto, para junto do meu homem e nós falaríamos sobre o nosso dia, e depois de nos entregar um ao outro, eu dormiria nos braços daquele que era meu marido, amigo, amor e amante aquele que era, sem duvidas o meu porto seguro. Mais também vibrava de alegria, pois eles estavam juntos e a melhor companhia para um eram os outros.  Agradeço a Deus por não ter tido a coragem de me jogar daquela janela, pois apartir daquele dia, eu me tornei a pessoa mais feliz do mundo e descobri que apesar de tudo, desistir da dádiva da vida, não é o melhor caminho. 


“Quando o passado se repete
a esperança caminha para traz
e é no alto da janela
 que seu coração se refaz”.