Os 15 contos do livro Atlas do impossível (Penalux, 2017), de
Edmar Monteiro Filho, conduzem o leitor não a um caminho retilíneo e plano, mas
por ruas curvilíneas e íngremes, perfazendo uma geometria de dificuldades, com
figuras que se desdobram num virtuosismo profundo em que o leitor não tem
possibilidade de escolha, uma vez que a narrativa revela múltiplos enfoques,
mostrando o plurivocalismo e as camadas de um livro em expansão até o infinito.
Para tal intento, o autor utilizou como referência 15 gravuras do formidável
Escher, iniciando cada conto com uma ilustração do artista holandês. O título
de cada conto é homônimo a cada gravura de Escher, já revelando uma estratégia
temática de Edmar Monteiro Filho, a simulação e seu estranhamento a partir de
cada narrativa. Outra homenagem prestada por Edmar no seu livro excepcional é a
referência ao escritor argentino Borges que num dos contos deste livro é
personagem da narrativa, valendo-se o autor brasileiro da temática borgeana
também para estruturar a espinha dorsal de seus textos juntamente com Escher,
demonstrando a riqueza que se bifurca neste livro, unindo as influências das
artes plásticas e da literatura, nos revelando os diálogos entre Escher e
Borges.
No catálogo do CCBB “O mundo mágico de Escher”, do
curador Pieter Tjabbes, este já vislumbrava o paralelo entre os dois célebres
artistas: “...ambos abordam temáticas
com filosofia (e seus desdobramentos matemáticos), infinidade e metafísica, em
narrativas fantásticas onde figuram os “delírios do racional” expressos em labirintos
lógicos e jogos de espelhos”. Edmar capta esta íntima relação entre ambos e
produz um livro fantástico, trabalhando com a exploração dos efeitos do jogo de
espelhos, como o papel do que se intenciona ou deseja com o que se afasta ou
repele, que podemos ver no conto “Dia e noite”: “Observo o espelho prestes a
quebrar-se...” A fragilidade do espelho aqui que pode se espatifar desnuda este
espelhamento fragmentado que acaba levando ao oposto da imagem que se quer
construir, ou seja, aquilo que reluz pode mostrar o seu lado mais sombrio. O paradoxo
doença/cura nos leva à imagem do
pharmakós que traz a cura mais também um veneno, que é a serpente enroscada
em cada beleza. Como escapar de um caminho que pode levar à libertação, mas que
traz inserida a ruína para estes personagens doentes que vivem nas ruas neste
conto emblemático?
Há espelhos cortados, partes de um espelho formando o
todo. O narrador joga com a inteligência do leitor o tempo todo, como se a
própria narrativa fosse um espelho a ser refletido pelo leitor inteligente que
deve juntar as peças deste puzzle
enigmático. O livro de Edmar não percorre as linhas de uma narrativa fácil, é
denso em seu poder de autorreflexão que se espelha no conhecimento de um
receptor perspicaz. No conto “Predestinação”, temos esta urdidura máxima em que
o narrador não poupa sua rica e admirável imaginação nos labirintos em
múltiplos caminhos e ângulos. O conto nos faz recordar da origem da palavra
“texto” que vem do latim textus, que
significa “tecido”. Como não perceber que este conto é uma trama em que as
várias linhas se chocam e se unem para formar um todo em seu sentido lógico e
coerente? O conto nos dá a chave que tem que ser aberta pelos olhos iluminados
do leitor atento. O narrador desafia a todo tempo o leitor como vemos em
Machado de Assis.
Em “Convexo e côncavo”, a mensagem encontrada num origami
do bonsai nos direciona para esta fragilidade tênue que se encontra na vida de
nosso dia a dia: “A vida é frágil”, fazendo-nos lembrar da notável frase de
Guimarães Rosa “Viver é muito perigoso”. Entre a fragilidade e o perigo, a vida
carrega o peso desta medida que as personagens complexas e profundas deste
maravilhoso contista nos revelam. A camada lisa do espelho é propensa ao
arranhão, à rasura, à fratura. Os contos deste livro são intensos em demonstrar
as peripécias da vida com suas realidades e irrealidades, com sua nudez e
sonho. As personagens destes contos são andarilhos de um labirinto frágil que
não lhes dá uma resposta satisfatória. O autor se pauta nas questões, nas
interrogações que se encontram no lado ainda não visto do espelho, como em
“Espelho mágico”, em que a foto deixada na mesinha da sala é o motivo para a
narrativa e para as digressões do narrador/personagem, que se confundem.
São constantes as interferências do narrador, revelando a
intensa maestria no próprio ato da narrativa e da leitura, que equaciona o
conto como produto de um acontecimento, de uma presentificação, de um
aqui-agora. Clarice Lispector era mestra em nos mostrar a partir de suas
narrativas o “instante-já”, o tempo do agora, como proposto pela professora
Carina Lessa. O conto “Três mundos”, de Edmar é
impactante e revela a outra face do espelho literário, a meta-narrativa, com a
autorreflexão sobre seu próprio processo de escrita. O narrador que é
personagem, que busca afirmar uma verdade ficcional, onde realidade e ficção se
mesclam, a memória e esquecimento se alternam, produzindo um conto de fôlego em
que o contista mostra seu pleno domínio sobre esta arte difícil do conto que
para muitos é o texto em prosa da literatura mais complexo de se elaborar, pois
é necessária a medida certa, o ponto essencial.
Deleuze já apontava em Diferença e repetição que “...a mais exata repetição, a mais
rigorosa repetição, tem, como correlato, o máximo de diferença”. Podemos
perceber esta afirmação principalmente em dois contos de Edmar, “Fita de
möbius” e “Mãos desenhando”. No primeiro, temos o “déja vu” da personagem e partes
da narrativa são repetidas em espiral, revelando a dobra deleuziana que através
da repetição produz uma diferença. O espelho mais uma vez aparece aqui, sendo
uma metáfora recorrente nos contos de Edmar: “...esse tempo de onde meu rosto
olhou-me do espelho, em que cada passo e cada gesto é a repetição de um enredo
do qual conheço apenas o terrível desfecho.” No outro conto em que temos Borges
como personagem, temos o estudante da faculdade de Buenos Aires Barros que faz
uma entrevista com o célebre escritor argentino e na bela narrativa, temos um
conto do universitário Barros dentro deste conto, aproximando ainda mais Escher
e Borges, pois aquele aproveitava o espelhamento das formas geométricas,
utilizando uma mesma imagem de forma diferenciada. Aqui o conto “Pierre Menard,
autor de Quixote” de Borges do livro Ficções
(1944) é também aproveitado a partir deste espelhamento. O uso dos nomes Borges
e Barros não é gratuito para se falar do tema do simulacro. Assim,
admiravelmente, temos um duplo jogo de espelhos. Edmar se utiliza do conto de
Borges para fundamentar seu próprio e autêntico processo de escrita, pois
apesar de se valer do artista plástico holandês e do escritor argentino, o
contista brasileiro por ora aqui estudado é de uma originalidade surpreendente.
Dialoga com grandes gênios, mas revela também sua intensa genialidade em
construir contos tão elaborados e complexos em sua tessitura literária. Temos
uma obra ricamente ficcional que conhece todo o processo da confecção de um
verdadeiro conto sem deixar nada a dever aos grandes nomes da literatura.
Edmar Monteiro Filho produziu um belíssimo livro de
contos em que ele monta um jogo de puzzle
enigmático com os grandes artistas, com sua própria narrativa, com as
personagens, com a escrita, com as artes plásticas, com o leitor; produzindo um
tapete imaginário e real em que os desenhos geométricos se multiplicam em
caminhos da escrita, fazendo de sua obra um mosaico de experiências variadas em
que a autenticidade ganha voos altíssimos, costurando as linhas tênues entre a
vida e a morte, entre o que se consagra, se realiza ou se fracassa na vida de
personagens que deixarão o seu canto mais profundo em várias partes do mundo. O
domínio do verbo em Edmar é complexo, profundo e infinito como nos espelhos de
Escher e na biblioteca de Borges.
Alexandra Vieira de Almeida
“Atlas do impossível”, contos. Autor: Edmar Monteiro Filho. Editora Penalux, 264 págs.,
R$ 45,00, 2017.
E-mail: vendas@editorapenalux.com.br
Site: www.editorapenalux.com.br
Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux.
0 comentários:
Postar um comentário