Ontem observando
as crianças que brincavam em um pula-pula, numa festinha de aniversário, entrei
em transe, olhei não só para elas, olhei através, entrei no mundo infantil que
ria, gargalhava, caia, acenava, chorava, reclamava, levantava, pulava e sorria
novamente. Ali naquele pequeno espaço, naquela redoma, havia um universo
inteiro de conhecimento, tive o privilégio e permissão de atravessar por um
milésimo de segundo o campo invisível, e eu percebi e me envergonhei mediante o
ensinamento infantil.
Neste mundo
indecifrável do qual fizemos parte um dia, do qual fomos retirados sem
percebermos, há um código, uma fala, um olhar bem peculiar que só tem acesso
aqueles seres pequeninos, infantis e enigmáticos. Nós atravessamos a barreira
invisível da fase, fomos retirados dela, deixamos para trás todos os exercícios
e conhecimentos, fomos postos em uma outra caminhada, tivemos que desaprender e
aprender, iniciou-se uma outra etapa, onde não éramos mais crianças, mas também
não éramos adultos. São elas tão bem definidas, eu as pude perceber numa noite.
De um lado este mundo cheio de códigos e tão simplório, onde nele não cabe distinção
de espécie ou esfera qualquer, vi classes diferentes atravessarem a barreira
porque só elas, as crianças, tem a chave e vi o quão podemos aprender com elas,
que se olham despidas de qualquer coisa e se veem crianças e pronto e ponto, pude
ver também a fase de transição da vida, uma adolescente entediada em seu mundo
virtual interagindo com seus afins, digitando os seus códigos e olhando tudo o
mais aqui fora, um mundo perdido para ela, vi o meu mundo o mundo adulto sofrido
, tenso, preocupado, crítico, preconceituoso, desconfiado e estranho, onde
segmentos familiares sentaram-se cada um no seu quartel e se guardaram em suas
carapaças, não há permissão de entrega nem de sorrisos, pois você não tem, não é,
e não sabe, essas coisas de desníveis sociais, intelectuais e blá blá blás que
nos separam uns dos outros, um avesso do mundo infantil.
Perdemos a
oportunidade de interação e nos envergonhamos disso.
Um dia quando eu for criança novamente, e
isso irá acontecer, eu quero esquecer esta fase adulta, esta que me confere
poucas alegrias, eu quero um pula pula em cada esquina, então sorrirei a valer,
haverá é claro uma barreira invisível, haverá o meu código, aquele que, quando
eu olhar para você e enxergar a mesma estrutura, as mesmas marcas de vida, eu o
identifique, sua passagem será mágica então nos daremos as mãos, pois haverá um
outro mundo a nossa espera do qual ninguém jamais pode ou poderá abster-se, mas
é só uma etapa.
Ana Cristina da Costa.
Créditos da Imagem: Google

0 comentários:
Postar um comentário