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sábado, 31 de outubro de 2015

[Halloeste] Filme "A Hora do pesadelo" - Myllena Nonato

 Olá queridos leitores , hoje é halloween, ou seja,  é hora de contar histórias assustadoras!. Mas, não me responsabilizo por aquilo que acontecer com vocês.
  Irei falar de um filme que não me assustou muito... (Eu acho)
  
Um grupo de amigos, formado por Nancy, Tina, Rod e Glen  é assustado por pesadelos estranhos, envolvendo o mesmo  personagem, um homem de suéter listrado e com longas lâminas nos dedos, chamado Freddy Krueger. O que parecia apenas uma coincidência estranha, acaba se revelando uma  vingança sobrenatural, quando os jovens começam a morrer. Lutando contra o sono, ao mesmo tempo que tenta descobrir quem ou o quê é Krueger e como destruí- lo, Nancy precisa lutar contra a loucura e contra os adultos da cidade que parecem esconder algum segredo horrìvel. 
O Filme possui uns cem números de cenas antológicos. A mais famosa sem duvida, é a morte de Glen sendo puxado para dentro da cama durante um cochilo e triturado num imenso jorro de sangue, Robert Englund  como Freddy Krueger seu olhar psicótico, sua voz  e gestos são o suficiente para deixar qualquer um com medo de pôr a cabeça no travesseiro.

Bom , aqui esta a história sobre o filme "A Hora do Pesadelo", confira abaixo as imagens do filme abaixo:
 .



[Halloeste] Conto "Ostracismo XXI" - Sara Timóteo

Ostracismo XXI


 Passaram dois anos até que as pessoas que a haviam conhecido sentissem a falta dela. O linguajar incessante, o riso desbragado e a bazófia desalinhada não cativavam ninguém, ao contrário do que ela sempre havia pensado.
Quando se apercebera disso, remetera-se a um mutismo que, noutra pessoa, seria considerado como inquietante. O riso fora o primeiro elemento a desaparecer das interacções sociais em que era forçada a incorrer. Depois, Adelina deixara de se dirigir a alguém de moto próprio, com excepção das ocasiões em que comprava comida ou outros bens de primeira necessidade. Finalmente, desaparecera: deixara de sair à rua e isolara-se de tudo e de todos. Fora esquecida e em breve substituída por outras pessoas de riso mais fácil e de menor superficialidade.
O único ser que a notara diferente havia sido o seu cão. Apenas por ele saía à rua e entabulava conversa com os que, como ela, passeavam outros cães. Pirata, muitas vezes, gania e oferecia-lhe a pata ou lambia-lhe a mão e o rosto quando a encontrava banhada em lágrimas ao final do dia. Recebia Adelina sempre com a mesma alegria, quer fizesse chuva, quer fizesse sol.
Esta espécie de ostracismo continuara até que se convertera, em pleno século XXI, numa sombra do que fora. Era todos os dias resgatada por Pirata dos pensamentos mais sombrios. Assim a vida de Adelina prosseguiu até Pirata morrer de velhice cinco anos mais tarde.
Estava-se em plena época de Halloween. Pirata ganira e deixara de respirar. Enquanto o desfile da multidão passava por Adelina, ela embalava o corpo do seu companheiro animal nos braços.
Um jovem bem-parecido que passava mascarado de Drácula apresentou-se com uma leve vénia e disse:
- Este é o disfarce mais bem pensado de sempre! «Solteirona ampara o cão da sua vida». Sou fotojornalista. Posso tirar-lhe uma foto para a minha reportagem de Halloween?
Adelina virou a face para o cotovelo direito e lá escondeu as lágrimas até estar certa de que o pseudo-Drácula havia partido. Com um suspiro, levantou-se e encaminhou-se devagar para o apartamento onde vivia. De um qualquer modo paradoxal, pensou, era sempre nesta altura que as máscaras caíam. Como pode um jovem tão bem apessoado revelar tal crueldade?
 De súbito, desejou que o Hallowen dissesse respeito a algo de genuíno e que um dia Pirata e ela, nas rodas das várias vidas, pudessem encontrar-se de novo.

Sara Timóteo.


[Halloeste] Mini tag de Halloween

Olá pessoal, gostosuras ou travessuras?
Trago para o nosso "Halloeste" uma pequena tag de Halloween que eu mesmo fiz, indicando algumas coisas que tenham haver com essa data. Os canais e blogs indicados, são os que eu acompanho e que fizeram especial de halloween.


• Um livro: Caçadores de Almas - Ana Beatriz Brandão.
• Um canal do youtube: Pulp Fictions com Lucas Dallas.
• Um filme: Exorcismo no Vaticano.
• Uma série de televisão: American Horror Story.
• Um blog literário: http://www.baiaodeletras.com.br/
• Um personagem do Halloween: Abóbora.
• Um personagem de livro: Drácula.

Como vocês podem ver, é uma tag bem pequenininha mesmo só para indicar algumas coisas que eu tive acompanhando neste mês de Halloween.
Agora comente aqui em baixo, quais são os favoritos de halloween de vocês.
Um abraço!

[Halloeste] Poema "Sete Palmos" - Davyd Vinicius

Sete Palmos


Você definha
Em meio a sua podridão
Você se perde 
Em meio a devastidão

Se perdeu
Não se acha mais
Dobra os joelhos
Sem olhar para trás

Não ama
Apodrece
Solitário
Desaparece

De preto
Não há perdão
Se crucifica
Abaixo do chão

São apenas sete palmos
Um cemitério de ilusão
Há moscas habitando
Em luto pelo seu coração.

Davyd Vinicius

[Halloeste] Entrevista com o escritor Márcio Benjamin

 

  Oá pessoal, após muitos pedidos em nosso facebook, trazemos neste dia de Halloween uma entrevista exclusiva com o escritor Márcio Benjamin.

 Ele é o autor do livro "Maldito Sertão", que contem diversos contos de terror, o conto "O lago" que foi publicado aqui em nosso blog este mês, faz parte deste livro também. Para lê-lo, basta clicar aqui.


Confira a entrevista abaixo:


Conte-nos um pouco sobre o seu livro "Maldito Sertão".

R: Bem o Maldito Sertão é o meu primeiro livro solo, foi lançado em 2012 e está na sua segunda edição. O livro é uma obra de terror, que procura lançar um olhar macabro sobre as nossas lendas folclóricas mais conhecidas, trazer um pouco de volta aos leitores de hoje o sabor das histórias que eram contadas pelos nossos avós. Gosto de brincar dizendo que é um livro de lendas rurais, em contraponto às lendas urbanas.


Com o decorrer da leitura, é possivel notar o uso do folclore de uma forma bem medonha. Como é pegar algo que muitas vezes fez/faz parte da infância das pessoas, e transformar em algo assustador?

R: É um grande prazer, no fim das contas, porque na verdade estamos trazendo de volta essas lendas, essas histórias, e ao final descobrimos que nunca foram esquecidas, pois ainda estão encantando tanto os adultos que relembram sua infância, bem como os jovens leitores de hoje, que estão se encantado, e o mais importante, estão se reconhecendo nas histórias, se sentindo representados, seja pela localização delas, seja pela linguagem, que, por decisão minha, é bastante oralizada, por assim dizer. Só lendo pra entender.


Com apenas uma busca rápida pelo nome do seu livro na internet, podemos notar a ótima crítica que ele vem tendo. Como é para você, ver toda essa receptividade do público?

R: Meu Deus, é um prazer e uma honra saber que tem tanta gente interessada no livro, porque pra mim ele é um filho quase, e saber que as pessoas falam bem do seu filho é uma coisa louca. Gente que eu não conheço que eu nunca vi, de repente acaba tendo um carinho, uma identificação contigo por conta do teu trabalho é a gratificação mais linda que um escritor pode ter. Outro ponto incrível é que o livro já foi enviado bem dizer pra todo o Brasil e as pessoas estão compreendendo toda a história e curtindo. Digo isso porque fiquei um pouco receoso pela linguagem, mas estou vendo que não está havendo essa barreira, o que me deixa tranquilo e satisfeito.

Por que escolheu o terror como estilo de escrita?

R: Eu sou um fã inveterado do terror faz séculos (risos). Desde criança esse tipo de história sempre me pegou direto pelo coração. Comecei com os filmes e depois pela escrita. A beleza do terror é que você ganha pelos dois lados, tanto você se surpreende com uma boa história cheia de reviravoltas, quanto você se assusta pelo clima criado. Da mesma forma o, terror é cheio de simbolismos e permite você criticar ou entrar em contato com vários temas espinhosos, utilizando representações, e criticando o que quiser. E de certa forma, ao contrário do que dizem, ao meu ver, o terror é bastante real sim, pois apresenta situações surreais aos personagens e não há opção para eles a não ser encarar, enfrentar, não há essa coisa de que “vai ficar tudo bem”, “vai dar tudo certo”, ele te joga na realidade e diz se vira! (risos). E a vida, pra mim, é assim, né não? (risos)


Qual é o lado mais difícil de escrever esse estilo?

R: O preconceito, sem dúvida. Não só o de algumas pessoas, mas principalmente o do próprio escritor, o que é o pior! O escritor de terror nunca deve se envergonhar do seu trabalho, pois ele tem muito valor. Essa baboseira de que terror é sub-literatura infelizmente ainda existe e deve ser combatida.


Quais são seus livros favoritos?

R: Danou-se! (risos) Rapaz, são tantos...mas vamos lá. Creio que obviamente a grande referência pra o meu trabalho é o grande Stephen King, especialmente com o seu Cemitério e Sombras da Noite, que são pra mim eternas referências de romance e contos. Mas também gosto de muita coisa fora do gênero, o que considero essencial para o escritor conhecer a sua função. Sou apaixonado pelo Cem anos de solidão (García-Marquez), O jogo da amarelinha e Histórias de Cronópios e de Famas (Júlio Cortázar), Contos de Amor Rasgados e Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento (Marina Colasanti), Morangos Mofados (Caio Fernando Abreu), Entrevista Com o Vampiro (Anne Rice), O Velho e o Mar (Hemigway)...dentre vários outros (risos). Da mesma forma existem escritores fabulosos no Brasil que devem urgentemente ser (mais) conhecidos, como Camila Fernandes (Reino das Névoas), Eric Novello (Exorcismo, amores e uma dose de blues), Felipe Castilho, com sua trilogia que também trabalha com o folclore, dentre outros. Sem falar nos sucessos já consolidados de Draccon, Vianco, Spohr e Montes. Ou seja, o terror é uma boa!



Se você pudesse viver a vida de um dos personagens dos livros que já leu, qual escolheria e por quê?

R: Olha, sinceramente nenhum! (risos). Minhas histórias são bem assustadoras e confesso que sou meio carrasco com os coitados! Prefiro ficar desse lado da tela! (risos)



Quais são seus próximos projetos?

R: Estão desenhando o Maldito Sertão, em 2016 teremos o danado em forma de quadrinhos, sendo desenvoldio por um coletivo de desenhistas irreais daqui chamando K-Ótica, que já fizeram um trabalho antológico sobre a obra do Lovecraft  com outra graphic novel chamada “Lovenomicon”.  Já tô aqui num pé e noutro!  Da mesma forma, estamos desenvolvendo um projeto do livro para o cinema também! E já deixei na editora o original do próximo livro, que se chamará Fome e será a história de uma cidade quase deserta do nordeste, acometida por uma espécie de apocalipse zumbi. Vai ter de tudo que se espera de uma história assim e o que não se espera, mas deveria esperar (risos), mulheres fortes, negros, críticas sociais e religiões de matriz africana mencionadas com respeito e de forma bem peculiar! Vocês não perdem por esperar!


Geralmente os autores costumam ter algum tipo de "ritual" para escrever, alguns só escrevem ouvindo músicas, bebendo chá, outros só escrevem de madrugada e etc. Você tem algum?

R: Na verdade não. Apenas anoto o que pode vir a ser uma boa história e desenvolvo em casa, sozinho, no silêncio. Escrevo o grosso da história e vou burilando depois.


Há algo que você queira dizer ou acrescentar nesta entrevista?

R: Só queria agradecer o espaço e convidar todos a conhecerem o livro e estimular o apoio a literatura nacional! A melhor forma de estimular o seu artista preferido e viabilizando a sua obra. Assim, já sabe, entrando em livrarias, dê uma chance à literatura nacional, duvido que você se arrependa!



 Márcio, muito obrigado por conversar conosco, deixamos as portas do nosso blog abertas e ficamos a sua disposição sempre que precisar.
 Lhe desejamos todo o sucesso do mundo e esperamos que esse seja apenas o início de uma grande carreira.


Gostou dessa entrevista? Então comente aqui em baixo, qual escritor(a) você gostaria que fosse entrevistado(a) no mês de novembro.



[Halloeste] Poema "O Senhor das Trevas" - Ana Cristina




 Bom dia pessoal, estreando o tema Halloween, espero que gostem.


O Senhor das Trevas


A noite se deitou em manto nublado
Gelificou os seres amorfos aninhados
O quadro estava pintado, posto em toque.
Despertou os pares desalmados.

O mestre desencanta em manto negro
Sobeja os anos de clausura e enterro
Aguça os sentidos em busca de vida
Alcança a horda há muito adormecida 

O senhor de tudo e de todas as horas
O mestre das lâminas e agudas pontas
Afia as unhas roxas sujas e tortas
E com seu pensar alcança o ser em retas e ondas.


Outros seres viventes e crentes em vida
Camuflaram seus corpos no vasto bosque
Adormeceram ante o pavor da certa mira
Despertaram à luz do sol num leve toque 

O céu se curvou ao negro escuro
Soprou gotas geladas em mil direções
O senhor de tudo reverenciou o mundo
Serviu, tomou pra si as chaves das maldições.


Espalhou terror por onde os passos iam
Vociferou seu nome em ouvidos já dormidos
Entalhou seu nome em peles que doíam
Regozijou-se ante os pais e amantes enfurecidos.

Fez festa de arromba em plena luz do dia
Gargalhou seus dentes afiados de marfim
Muitos o aguardavam, até o mais puro já sabia
Ouçam todos os presentes: Este é o fim.

Ana Cristina.





Aproveito para indicar dois filmes:


O Silêncio de Melinda



Exorcistas do Vaticano

[Halloeste] Conto "Aviso" - Camila Servello


Aviso

Camila Servello Aguirre


   Mariana tinha pressa. Queria chegar logo em casa. Amaldiçoava o professor de Farmacologia que havia marcado aquela reposição de aula por conta da matéria perdida com o feriado prolongado. Agora tinha que subir sozinha para casa no meio da noite. Não tinha uma alma bondosa para lhe dar uma caroninha. Todo mundo deveria estar em suas reps e apês se arrumando para a festa logo mais no Pioneiros. Ela não. Tinha ficado até nove horas da noite vendo uma aula chata sobre antibióticos. Em sua cabeça repassava o nome dos fármacos para se distrair. Nifastadina… Uma gota em seu ombro… Rifamicina… Apertou ainda mais o passo… Eritromicia… Caramba, estava começando a chover! Bufou irritada e ao mesmo tempo cansada. Mais alguns quarteirões e chegaria. Sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Passava agora na pracinha com o nome de inúmeras criancinhas mortas. Coisa macabra. Cidade macabra. As lendas urbanas daquela cidade faziam a baiana ter seus pelos arrepiados. Primeiro aquela praça. Depois tinha aquela história de las siete catacumbas; sete túmulos no meio do canavial que eram morada de dezenas de mortos pela peste no inicio do século. História supostamente verídica transmitida na TV espanhola que ela vira logo que se mudara para Jaboticabal pelo You Tube. Era melhor deixar aquelas histórias para assustar os priminhos mais novos quando voltasse para Salvador e passar as tão sonhadas férias de verão. Não gostava de Jaboticabal. Sentia como se o ar daquela cidade fosse carregado de algo maligno. Talvez fosse exagero seu. Talvez devesse parar de ficar até tarde vendo filmes de terror com as meninas da rep Puricanas. Afastou aquela sensação agourenta e suspirou cansada pedindo aos céus que pudesse descansar de toda aquela loucura. Se soubesse que alguém estava ali ouvindo o seu desejo mais interno jamais o teria desejado.
Cruzou a praça. Atravessou a rua. A chuva estava se amainando, mas algumas gotinhas geladas molhavam seu ombro nu. Diminuiu o ritmo do passo. Felizmente já estava chegando. Era só virar a esquina e… quase foi para trás tamanho o susto que levou. Estacou levando a mão ao coração sentindo-o disparar instantaneamente. Reflexo de fuga ou luta. Hesitou por um segundo, ignorando o aviso de sobrevivência que seu corpo lhe dava. Fuga ou luta? Como se fosse fácil escolher entre lutar ou correr do perigo. Talvez seu instinto de sobrevivência não fosse tão forte em tomar controle dos seus músculos, pois ela ainda continuava estática, sem escolher entre os dois. Sua visão, embaçada e incomodada pela dilatação exacerbada de sua pupila demorou uns poucos segundos para que voltasse ao normal e readquirir o foco. Ficou ainda mais alguns segundos que pareceram uma eternidade fitando o que havia diante de si. Uma moça. Uma moça muito estranha para o seu gosto. Vestia uma túnica leve, talvez feita de seda, e branca. Parecia não estar molhada mesmo com a chuva forte que caíra há pouco. Sua pela era perlácea, anêmica. As maçãs de seu rosto não tinham volume e os olhos eram fundos, como se estivesse com uma grave desidratação. Seu aspecto era de uma pessoa frágil. Sua pele parecia de uma pessoa idosa, sem elasticidade e enrugada. Teve medo que uma simples mudança no vento fosse capaz de fale-la bater de cara no chão.
Mariana refletiu por um momento. Tentava se lembrar se a festa no Pioneiros seria à fantasia. Porque aquela moça era doente ou estava perfeitamente fantasiada para uma festa a fantasia ou halloween. Mas não era noite de baile a fantasia. Não era noite de trinta e um de outubro. Então o que raios aquela criatura fazia ali parecendo um fantasma?
— Oxente! Quer me matar do coração criatura? – disse depois dos seus muitos segundos de hesitação.
A moça piscou lentamente como se estivesse realmente fraca, como se estar em pé ali exigisse muito das suas poucas energias.
Mariana, refeita do susto, franziu o cenho. Aquela ali não estava nada bem. Pensou que a veria cair desmaiada diante de si, mas a moça continuava parada impassível diante da doença que devia se abater sobre seu corpo. Mariana sentiu-se de mãos atadas. Tinha que dar um jeito de levar aquela moça para algum médico, alguém que pudesse ajudá-la, mas como?
— Vixe, vou ter que dar um jeito de te levar pra um hospital. Você não parece nada bem.
Nada. A moça frágil não parecia nem escutar o que ela lhe falava. Parecia em outro plano, como se sua consciência estivesse desligada para a realidade. Olhava para Mariana, em seus olhos, e parecia ver além. Desconforto. A baiana sentia-se completamente mal com aquele olhar. Era como se ela quisesse olhar dentro de si. Como se estivesse concentrada em ver a sua alma.
Ela piscou lentamente mais uma vez de maneira anfíbica. Dessa vez, quando voltou a encarar Mariana, parecia menos distante e mais concentrada na realidade.
— Eu vim dar um aviso – sua voz saiu rouca e grave, distorcida pela ofegação entre as palavras. Mariana se arrepiou. – Não esteja naquele ônibus.
As feições de Mariana se enrugaram em estranheza enquanto que a moça parecia ter voltado ao seu estado de latência. Aviso? Ônibus? O que aquela estranha estava falando? Confabulou tentando encontrar um motivo para aquela piada. Só podia ser isso. Piada. Aquela estranha provavelmente estava querendo lhe pregar uma peça.
— Escuta aqui ô… - ia dar uma boa bronca naquela ali, mas assustou-se ainda mais quando viu que a moça não se encontrava mais diante de si. Mas como? Ela estava ali a um segundo! Só tinha se distraído por um curto espaço de tempo para de repente sumir assim! Teria corrido? Mas corrido como se não conseguia nem ficar em pé?!
A chuva, como que misteriosamente, voltou a cair de maneira avassaladora, enquanto que a baiana continuava parada encarando a calçada escura na sua frente sem entender o que havia se passado.

Assustou-se com o trovão. Mariana estava perdida em seus pensamentos naquela noite. O cansaço do semestre parecia pesar sobre os seus ombros. Olhou pela janela do ônibus. A chuva castigava o solo e o barulho das gotas pesadas na lataria do coletivo tornava aquela viagem ainda mais tenebrosa. Pela janela embaçada podia ver algumas luzes alaranjadas se destacarem contra o negrume da noite. Não tinha certeza, mas deveria estar passando por Barrinha. Ela detestava pegar o circular para Ribeirão Preto. Ainda mais naquela hora em que o motorista parava em qualquer porteira. Mas era o único horário que havia. Se queria chegar a tempo no aeroporto, tinha que ser com aquele ônibus. O outro circular, direto, passava uma hora mais tarde e por isso não se encaixava em seus planos. Por sorte, poucas pessoas tinham resolvido viajar àquela hora da noite, ainda mais com aquela chuva, e por isso o ônibus não parou nenhuma vez dentro dos limites daquela cidadela. Em poucos minutos já deixavam Barrinha.
Mariana ajeitou a pesada mala de rodinhas que estava pendendo para o corredor do ônibus com o chacoalhar da condução. Irritou-se. Além da mala enorme ainda carregava vais uma mala de mão e uma mochila. Todo final de semestre era isso. Tinha que fazer uma verdadeira mudança. Iria ser um parto andar com tantas coisas naquela rodoviária perigosa que era a de Ribeirão. Enquanto pensamentos invadiam a sua mente: Ah! Deixa disso Marina! Ao menos você está voltando pra casa! Sim, depois de muito estudar, estava enfim voltando para casa. Amanhã, nesse mesmo horário, já terá aterrissado em Salvador. Iria rever a família, os amigos e a cadelinha Luna, sua boder collie que tanto amava.
Um choro de criança a trouxe de volta dos seus devaneios. A três bancos na sua frente uma moça tentava acalmar a filhinha que chorava copiosamente. Uma bebezinha pequena que provavelmente estava sofrendo de cólica. Mariana sabia. Sua irmã quando era criança chorara daquela mesma maneira quando sentia cólica.
Mariana gostava de crianças, mas o pesar de muito estudo e a canseira das provas finais, lhe renderam uma dor de cabeça que só piorava com a voz estridente da pequena a gritar. Suspirou fundo e ficou a encarar o vazio diante de si. A cabeça martelava a cada choramingo e ela pareceu entrar num estado de tupor. Não olhava mais para o mundo ao seu redor. Não ouvia mais a chuva. Não ouvia mais o motor ruidoso. Só o choro estridente da criança. De repente sua visão clareou, como se fosse a luz do fim do túnel. Coisa estranha de se pensar. Mas não era isso, eram os faróis de um caminhão de cana que invadia a pista contrária bem em direção ao circular
Escuridão.
Mariana abriu os olhos. Estava estirada no chão do ônibus. A dor de cabeça havia milagrosamente passado. Na verdade havia uma dor mais intensa. Uma dor vinda de suas entranhas. Mariana sentia a barriga doer horrivelmente. Algo em seu peito pesava impedindo a respiração. Falta de ar. Gemeu desesperada. Tinha sofrido um acidente. Quis gritar, mas desistiu. Reparou que um silêncio mortal pairava no ar. Olhou na direção do banco onde a menina chorava. Mas não havia mais choro. Não havia criança. Havia um rastro de sangue e um ursinho de pelúcia caído no chão. Acompanhou o sangue e viu uma mãozinha diminuta aparecer em meio às ferragens da lateral e frente do ônibus no momento em que o céu clareou com um raio. Mariana começou a chorar. O seu choro era o único barulho além da chuva. A dor só piorava. A falta de ar mais ainda. Sentiu-se engasgar. Gosto de sangue na boca. Engasgou mais ainda não conseguindo tossir por conta da dor. Adormeceu pensando que acordaria daquele pesadelo a qualquer momento na quentura da sua cama. Mas Mariana nunca mais acordaria em seu colchão macio. Pra falar a verdade, ela nunca mais acordaria.

(...)

Talita era bixete da Admistração naquele segundo semestre de 2010. Havia terminado uma prova e agora corria para casa para se arrumar para o tão falado Baile da Dorotéia, em que meninos iam de meninas e meninas de meninos. Quando quase estava chegando topou com uma moça realmente estranha. Era morena, mas a sua pele tinha um tom acinzentado, quase cadavérico. Vestia uma túnica branca e parecia extremamente frágil.
— Eu vim aqui te dar um aviso – ouviu-a dizer com a voz rouca.
Talita podia jurar que tinha percebido um leve sotaque baiano na voz da morena.



Camila Servello Aguirre nasceu em Taquaratinga, interior de São Paulo, e se mudou para a capital. Participou em 2010 da antologia Draculea II, onde lançou o seu primeiro conto Meia Noite. Atualmente voltou a morar no interior. Cursa Medicina Veterinária.
Blog: http://sugadoresdealma.blogspot.com/
Contato com a autora: camila_servello@hotmail.com.


sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Halloeste - Nossa festa de Halloween literário


Amanhã (31), teremos em nosso blog uma programação toda especial em comemoração do Halloween!
Vocês encontrarão aqui poesias, contos, entrevistas e etc, tudo relacionado ao "Dia das bruxas".
 Além do mais, nossa equipe estará recebendo textos (poesias, contos, lendas urbanas e etc), dicas de filmes e livros de terror e suspense, videos e etc, para serem divulgados aqui em nosso blog.
 Quem quiser participar, pode enviar o material através do nosso email faroesteliterario@gmail.com, pelo inbox do facebook ou utilizando a hastag #Halloeste.
 Em nosso facebook, também estarão acontecendo diversas brincadeiras interativas com escritores e leitores.
 E aí? Vai ficar de fora? Lógico que não né?! Então corre e envie seu material!