HUMILDEMENTE AUTOR DA PRÓPRIA HISTÓRIA
"Humilde e obscuro, mas infatigável no estudo e no trabalho, Astolfo Marques fez-se de tal modo indispensável aos homens brancos a quem servia, que, na organização da "Oficina dos Novos", eles se viram forçados a dar-lhe um lugar a seu lado".
Humberto de Campos
Nascido na plena vigência do regime escravocrata, que somente 12 anos depois teria sua abolição nominal, já que as seqüelas sociais da escravidão, graves, profundas e vergonhosas, prolongar-se-iam por anos a fio, qual estigma indelével, facilmente se concluirá com quantos e tão grandes obstáculos Astolfo Marques precisou lutar e, mais que isso, vencê-los e superá-los.
Além de negro e pobre, nasceu numa época e numa sociedade negreira e, portanto, provincianamente amesquinhada pelo preconceito de cor, segundo registram diversas obras maranhenses, a exemplo, entre outras, de O mulato (1881), romance de Aluísio Azevedo, Vencidos e degenerados (1915), crônica maranhense de Nascimento Moraes, O cativeiro (1941), memórias de Dunshee de Abranches, e, do próprio Astolfo Marques, A nova aurora (1913), novela maranhense.
Por força de sua vocação para as letras e, em conseqüência da premente necessidade de muitas leituras que lhe lastreassem a cultura humanística e literária que não haurira nos bancos escolares, Astolfo Marques postulou e obteve ingresso no quadro funcional da Biblioteca Pública do Estado, onde foi admitido em função compatível com sua condição social: servente, cargo do qual, por sua dedicação e habilitações, ascendeu depois, atuando como amanuense/assistente da Direção da Casa.
A pouco e pouco firmou seu nome nos meios literários da cidade, pela copiosa colaboração que publicou em diversos órgãos da imprensa, a exemplo d´A Revista do Norte, dirigida por Antônio Lobo, do boletim Os Novos, publicação oficial da Oficina dos Novos, do Diário Oficial e do jornal Pacotilha. Nesses e em outros órgãos publicou seus famosos Apuntos Biobibliográficos, novelas, contos, racontos e outros registros interessantes da vida maranhense, seus costumes, suas festas e tradições populares.
Astolfo Marques é, por excelência, uma das mais completas e relevantes figuras do costumbrismo maranhense, timbrando em retratar, com fidelidade, a vida das camadas mais humildes da sociedade local, extrato social de provinha, que conhecia profundamente, e que jamais renegou.
Um dos fundadores pioneiros da Oficina dos Novos, e seu secretário-geral sempre reeleito, não por acaso ocupou, naquela importante entidade da vida literária maranhense, a Cadeira 2, de que era patrono Celso Magalhães, pioneiro dos estudos folclóricos no Brasil.
Também na Academia Maranhense de Letras, ao fundar a Cadeira 10, tomou para patrono o biógrafo Antônio Henriques Leal, consagrado autor do Panteon maranhense, cujo trabalho tem muito a ver com o pesquisador dos Apuntos Biobibliográficos.
Admira e edifica o fato de, na noite de 10 de agosto de 1908, no seleto grupo reunido no Salão de Leitura da Biblioteca Pública do Estado, onde Astolfo Marques servira de servente, achar-se ele, igual entre iguais, para participar da fundação da Academia Maranhense de Letras.
Entre os fundadores, foi Astolfo Marques o primeiro a falecer, após o trágico desaparecimento (1916) de Antônio Lobo.
Fran Paxeco, no trigésimo dia da morte de Astolfo Marques, aos 42 anos de idade, fez-lhe, no jornal Pacotilha, o elogio fúnebre, texto repetido na Revista da Academia Maranhense(Ano 2, v. 2), p. 77-79, que assim começa:
“Faz hoje trinta dias que Raul Astolfo Marques sucumbiu. Um padre solícito rezou uma segunda missa pela sua alma. Os filhos ficaram na miséria e os seus companheiros de trabalho, a breve trecho, esquecer-se-ão dele e do esforço que representou a sua vida, para subir à restrita nomeada em que a morte o arrematou. O egoísmo humano é feroz. E no entanto o Raul merece mais alguma coisa que missas – e do que o olvido cruel dos colegas.”
FONTE: Acadêmia Maranhense de Letras
Mariane Helena

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