Outro dia eu escrevi sobre os meus pecados capitais, claro que se assim
foram classificados, eles se multiplicaram ao longo da minha existência. Se
ontem tivesse sido o meu último dia (21) então eu teria praticado 19824
pecados, pois eu nasci e ao nascer eu rasguei o véu da inocência, já que fiz
uso da malícia avisando ao mundo da minha chegada, então eu chorei e chorando
percebi que ao meu redor era eu o centro das atenções, sendo assim, eu chorei,
chorei para quase tudo na vida. Depois me ensinaram que menina, princesa não
chora, é feio, oras bolas, essa é a ação
mais atuante na vida dessas criaturas, chorar, ao menos nos ensinam isso nos
contos de fadas e todas elas são lidíssimas. Percebi que para ter a atenção
voltada para mim eu teria que ser extraordinária, então eu escrevia poemas,
desenhava as letras exaustivamente até que ficassem “lindas”, tentei desenhar
personagens de quadrinhos, fiz alguns, mas eles ficaram em algum cantinho
juntamente com as lágrimas porque aprendi com os filmes que sozinha eu poderia
chorar todas as lágrimas do mundo e ninguém iria me perguntar nada, afinal não
tem importância alguma da mesma forma que este texto ficará vagando em alguma
página qualquer e ninguém irá ler.
Hoje quero falar sobre as dádivas, essas que todos nós recebemos ao
nascer e temos que conviver por toda a vida. As minhas são poucas, nasci com a
face bonitinha, embora o meu olhar no espelho me dissesse outra coisa. Minha
inteligência, foi esmagada mediante os elogios exagerados e tolos, ela se
intimidou. Mediante tais circunstancias meu cantinho já inundava de lágrimas e
ele sozinho depositava um grande volume de pecados.
Quando você se vê em um determinado instante da sua vida diante da
entrada do túnel ou da “passagem desta para melhor” ou ainda mediante a morte,
quando acontecer este momento e você tiver a chance de voltar deste breve
momento, verá que de imediato é implantado em sua alma o sentimento de
impotência, de nada. Eu passei por ele, foi ontem, quando o dia estava tão
organizado, tão perfeito. Eu estava feliz e isso me bastou para dividi-lo com
alguém. Foi o que fiz, compartilhei minha felicidade, aliás esta, estava de
férias havia um tempo. Como nada nesta vida é por acaso, agora sei disso, tive
um dia feliz e este se enovelou noite adentro, até o momento em que passei mal,
tive um choque anafilático, ao menos acho que foi isso, pois não sei dize-lo
com certeza, só posso descrever os sintomas, como são bem desagradáveis só vou
dizer que em toda a minha vida nunca havia sentido algo parecido, era uma dor
no abdome descomunal, isso se deu após a ingestão de um medicamento por mim bem
conhecido e ingerido ao longo dos anos, um relaxante muscular. Como tudo comigo
e em mim as ações e reações são imediatas, não poderia ser diferente com ele. Este
quase tirou-me deste mundo, desta dimensão. Confesso que eu, mãe de três
filhos, partos normais, mulher, nunca havia sentido algo parecido, se alguém aí
é entendido no assunto é só dizer, o que sei é que eram dores de esmagamento,
sensação de desmaio, as mãos se viraram para dentro com os dedos endurecidos,
foi uma questão de segundos, eu fui e voltei. O mal-estar foi passando, tomei
um banho bem quentinho e fui deitar, dormi. Bem, estou aqui, mas tenho certeza
de que o companheiro marido, não, este não dormiu, tenho certeza, também sendo
ele como é sentiu medo de me perder, mas eu não, estava dormindo. Aliás se eu
pudesse escolher seria dessa forma que gostaria de encerrar minha dívida com a
existência, dormindo.
Como hoje eu vim falar sobre as dádivas, vou te contar um segredinho:
anjos existem. Você não irá identifica-los no ato, no imediato. Eu levei um
tempo para isso, embora eu tenha duvidado dele, da sua real intenção. O fato é
que eu já tenho o meu. O meu anjo leva o nome de Antonio Silva, deve ser um
disfarce. Ele chegou de mansinho, e teve paciência comigo, eu sei o quanto sou
difícil. Então o que esse anjinho fez na minha vida? Me tirou do ostracismo,
isso mesmo estava eu no isolamento de mim mesma, operando as tarefas rotineiras
sem recebimento ao menos eu não o via. Ele me descortinou, acho até que me
despiu, arrancou a carapaça, então pude me ver como sou.
Há uma dádiva em mim.
Hoje canto, verso, falo, digo alto e em bom som.
Ultimamente ele segurou a minha mão e me fez sentar em cadeira em frente
ao microfone, o nervosismo só foi inicial, agora sob suas asas, solto minha voz
aos quatro cantos do mundo.
Sabe qual é o
segredo para manter as dádivas? Aprenda
as fórmulas, os códigos, nada mais.
Ana@Cristina.

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