Há
pessoas que estão sempre brincando de Deus. Resolvem mandar e desmandar por
puro prazer, apenas para mostrar quem está no comando. A humildade passa longe.
As letras maiúsculas e as frases
imperativas imperam no seu vocabulário.
Outro
dia eu estava numa padaria, ou melhor, numa panificadora como chamam aqui em
Curitiba, dessas cheias de guloseimas, que dá vontade de morar lá para poder se
empapuçar de tantas gostosuras. Um horror para o colesterol e para o diabetes!
Pois bem, uma das funcionárias estava mandando a outra reorganizar a vitrine de
doces. O que havia de errado? Nada. Era uma vitrine normal, bem limpinha, com
os doces de festa tão apetitosos a convidar os clientes a comprá-los.
Entretanto, essa moça tão simpática queria que a bandeja de doces fosse
organizada de acordo com um esquema que ela mesma criou. Chegou a planejar em
um papel, o qual estava em suas mãos enquanto falava com a colega, apontando
cada item anotado. “Vem um brigadeiro, depois um beijinho, por fim um dois
amores, sempre intercalando”, dizia ela como se tivesse descoberto a América.
Enquanto
a moça dos cabelos dourados cacheados, sem touca na cabeça ou luvas nas mãos,
brincava de Deus, dando mandos e desmandos a sua colega, a fila do pão só
aumentava. Somente uma menina atendendo enquanto as outras duas cuidavam desse
assunto de máxima urgência. Quanta eficiência! A competência, nos dias de hoje,
é raridade. Reinam os egos. Preferível mandar a atender bem os clientes.
Se
fosse só esse caso da panificadora, tudo bem! Mas é uma pandemia que se
alastrou por todos os lugares. Outro dia foi no banco, a bancária experiente,
mulher de meia idade, ensinava de forma ditatorial a bancária novinha
recém-chegada. O que ela ensinava? O serviço? Suas funções? Como atender os
clientes? Nada disso. Algo muito mais importante. A organização dos papéis em
sua mesa. O local em que cada tipo de papel deveria ficar. Burocracia sem
limites. Organização exacerbada. Só fica a pergunta: para que tudo isso?
Hoje nem fico mais
abismada com a importância das coisas em nossa sociedade. Esse é o lugar em que
vivo, faz inveja ao antigo Olimpo, afinal, aqui há muitos deuses a caminhar
pelas ruas.
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