Eu vi um casal de jovens no banco da praça, eles estavam tão unidos e
conectados pelo beijo que de longe poderíamos avistar um único ser, em metades,
dado o entrelaçar dos braços de um no outro, pude distinguir porque cada um
usava roupa com cor diferente do outro. Pude ver também algumas faíscas saindo
de seus corpos, talvez se pudessem captar a energia quem sabe.
É uma cena não muito convencional de ser ver em plena luz do dia, um banquete
a céu aberto, ao menos era o que estava a acontecer, não fosse o celular de um
deles tocar insistentemente, salvador da moral e dos bons costumes, os quais
aliás por onde andam? Contra o amor? O namoro na praça? Não. Contra a
explicitação de sentimentos íntimos fora dos ambientes apropriados. Contra a
falta de informação condizente às nossas crianças, tais como as brincadeiras e
brinquedos nos parques e praças.
Eu presenciei também a falta de educação de várias pessoas em situações diversas,
infelizmente. O fato é tão corriqueiro que às vezes ao cumprimentar alguém com
um simples “Bom dia”, penso que disse algo ofensor ou que eu deva traduzir e
explicar o motivo pelo qual estou me dirigindo ao ser tão igual a mim, mas tão
massacrado pela vida corrida, tecnologicamente nociva, infectada pela liberdade
de expressão dos erros da nossa língua, tão consumido por vídeos, mensagens
instantâneas e é só enviar, compartilhar que lá se vai o recado, a mensagem, a
declaração de amor e o bom dia.
Então acho que neste caso eu sou o ser estranho aqui, eu que ainda
insisto na cobrança do cumprimento matinal, vespertino, noturno, porque foi
assim que eu aprendi. Quando estes faltavam costumávamos perguntar à pessoa,
“dormiu comigo? ”
Hoje refletindo a frase, posso
dizer que também estava eu sendo contaminada por algo que alguém citou um dia e
achava que sabia o que estava dizendo.
Oras bolas! Uma pessoa que dorme com você, amanhece ao seu lado todos os
dias, merece um Bom Dia! enfático, porque está ao seu lado te aguentando todos
os dias. Somos seres cheios de defeitos, então o que nos resta fazer, nós que
temos a noção da moral e dos bons costumes? Resta-nos ensinar e orientar é o
primeiro passo, o segundo é dar exemplo pois uma biblioteca de ditos e não
ditos não vai fazer a diferença se os conhecimentos não forem aplicados e o
terceiro e último passo se os outros dois não derem resultado é “abstenha”
conselhos da minha filha, “mãe abstenha”.
Eu estava dentro do ônibus indo para casa, na volta do trabalho e avistei
este momento que não poderia passar sem o meu crivo.
O casal? Não sei o que aconteceu depois, mas espero que eles, os dois,
não levem este fogo adiante, existem queimaduras de vários graus, algumas podem
durar para sempre.
Por: Ana Cristina.

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